Arcade Fire reforça relação com Brasil, da Tropicália ao baile funk: ‘Música de rua brasileira é incrível’

G1 conversa com Arcade Fire

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Em 2013, o Arcade Fire criou uma ligação com o Brasil ao usar cenas de “Orfeu negro” (1959), no clipe de “Afterlife”. As cenas do filme dirigido pelo francês Marcel Camus, mostrando a adaptação feita por Tom Jobim e Vinicius de Moraes ao mito grego de Orfeu, marcaram os integrantes da banda para sempre.

Essa conexão foi reforçada na semana passada, quando o grupo canadense tocou no Rio e em SP, na turnê do álbum “Everything now”, de 2017. Como nas duas vindas anteriores, a sensação de catarse coletiva marcou os shows. Impressão semelhante à experimentada pelo personagem Orfeu da Conceição no filme – algo do qual o vocalista Win Butler jamais esquece.

“Tudo naquele filme é tão perfeito, a fotografia é ótima, as imagens do Rio são lindas, a atuação é perfeita. Além, é claro, de ser uma história de amor tão primitiva. Para mim, é um filme perfeito”, avalia Win, em entrevista ao G1 (assista no vídeo acima).

Mas a paixão pelo Brasil vai além… “Eu amo a Tropicália, Caetano Veloso e Os Mutantes… É tudo irrepreensível”, elogia avalia o guitarrista William Butler, irmão de Win, que completa:

“Mas também tem coisas modernas, mais próximas do rap… Eu estou tentando me lembrar do termo, eu acho que é… baile funk. Muitas músicas do Brasil que vêm da rua são incríveis”.

Win Butler segura bandeiras do Brasil e Haiti durante show em São Paulo (Foto: Celso Tavares/G1)Win Butler segura bandeiras do Brasil e Haiti durante show em São Paulo (Foto: Celso Tavares/G1)

Win Butler segura bandeiras do Brasil e Haiti durante show em São Paulo (Foto: Celso Tavares/G1)

Esse clima solar que encantou Win pode ser encontrado no novo álbum, com som mais alegre e dançante, algo não muito comum para o Arcade Fire. O resultado, mais perto da música eletrônica, não surpreende os integrantes do grupo.

“Acho que há uma leveza em algumas canções de ‘Everything now’. Aprendemos a tocar mais levemente e a sermos dançantes”, conta Will.

“Não que nunca tenhamos tocado música leve… Para mim, há uma linha de evolução da banda. Se você ouvir o final de ‘Wake up’, e o fim de ‘Crown of love’ e ‘Power out’, ‘Sprawl II’ até ‘Everything now’, há uma jornada ali que faz sentido para mim”.

Não tão Daft Punk assim

A mudança na sonoridade pode estar relacionada ao homem que assina a produção do álbum – o francês Thomas Bangalter, uma das metades do duo Daft Punk.

“Nós nunca vamos conseguir fazer um álbum que soe como o Daft Punk e eu nem acho que Thomas queria fazer isso. Sempre tivemos uma influência eletrônica, talvez um pouco menos óbvia em ‘Funeral’ [álbum de estreia], mas existem baterias eletrônicas e sintetizadores em todos os nossos álbuns”, afirma o vocalista.

A turnê do Arcade Fire passou pelo Brasil no momento em que a banda assume uma postura bem mais crítica em relação ao presidente dos Estados Unidos, Donaldo Trump.

“Em tempos de caos como este em que vivemos, cultura e arte se tornam muito importantes, porque são as fundações sobre as quais a sociedade é construída, onde as pessoas se importam umas com as outras. Para mim, cultura e arte devem ser uma força poderosa que nos motiva”, garante Will.

“Quanto mais as pessoas se conectarem com a própria humanidade, menos provável será que surjam líderes políticos ruins. Isso [a política] não é uma linha reta ascendente e agora estamos em um ponto muito baixo, mas temos que continuar trabalhando”, opina Win.

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