As relíquias que D. Pedro 2º encontrou no Egito e foram queimadas no incêndio do Museu Nacional

O imperador Dom Pedro 2º nas pirâmides do Egito, em 1871, cercado por moradores do país

O imperador Dom Pedro 2º nas pirâmides do Egito, em 1871, cercado por moradores do país Reprodução

“Às 7 ancoramos perto da margem esquerda e um pouco a montante de Manfalout (no Egito). Esteve admirável o crepúsculo com os seus matizes esverdeados e vermelho-claro.”

A frase acima faz parte de um dos diários de viagem de D. Pedro 2º e se refere a uma expedição que o imperador brasileiro fez ao Egito na década de 1870. Explorador e interessado por culturas e línguas estrangeiras, D. Pedro 2º nutria grande curiosidade pelo Oriente Médio e, em especial, pelo Egito Antigo.

Apesar de ter visitado o país somente aos 45 anos, o interesse do imperador pela egiptologia começou na infância, quando entrou em contato com uma vasta coleção de antiguidades escavadas na necrópole Tebana, atual Luxor, no Templo de Karnak, comprado pelo pai, D. Pedro 1º, em 1826.

“Foi através de um tal Nicolau Fiengo, mercenário italiano que passou pelo Brasil em 1826, trazendo esta mercadoria de Marselha, França”, conta o escritor Roberto Khatlhab, autor do livro As Viagens de D. Pedro 2º: Oriente Médio e África do Norte, 1871 e 1876. “Na verdade, o destino final do tal Nicolau era Buenos Aires, mas, não conseguindo chegar à capital Argentina, voltou ao Brasil e, no Rio de Janeiro, colocou as relíquias à venda”. D. Pedro 1º comprou todo o acervo e levou as peças para o Museu Real, criado pelo imperador em 1818.

“D. Pedro 2º era profundo conhecedor de história universal, tendo aprendido línguas como o árabe e o hebraico para poder ter acesso a documentos originais”, conta a historiadora e professora da PUC do Rio Grande do Sul, Margaret Marchiori Bakos, lembrando que o fato de D. Pedro 2º ter ficado órfão muito cedo fez com que o imperador fosse educado e criado por tutores, de quem recebeu uma educação formal e culta. “A ideia era criar uma memória da monarquia brasileira sóbria, erudita, vinculada a cultura, ciência e educação.”

Das expedições ao Egito, D. Pedro 2º trouxe artefatos históricos, mapas, livros e fotos de viagens. Sua coleção de fotografias de viagens – não só ao Egito, mas também de excursões feitas pela Europa, África e Oriente Médio – foi a maior do século 19 pertencente a um governante. Já a sua coleção de artefatos históricos da civilização egípcia ajudou a formar o maior acervo egípcio da América Latina.

 

O prédio do Museu Nacional já foi morada da família real no Rio de Janeiro

O prédio do Museu Nacional já foi morada da família real no Rio de Janeiro Museu Nacional

Em 2010, os documentos de viagens de D. Pedro 2º foram reconhecidos pela Unesco como patrimônio da Memória do Mundo e fazem parte do acervo do Museu Imperial em Petrópolis, no Rio de Janeiro, onde os diários podem ser visitados pelo público. Já as relíquias egípcias trazidas pelo imperador ao Brasil e compradas por seu pai, dentre elas peças raras como múmias humanas inteiras e sarcófagos, faziam parte do Museu Nacional desde 1889, mas foram queimados na noite do dia 2 de setembro durante o incêndio que destruiu o histórico Palácio de São Cristóvão, onde funcionava o Museu.

As expedições egípcias

“Foi sempre um grande desejo de D. Pedro 2º conhecer a Europa e o Egito, mas a oportunidade se apresentou somente quando sua filha Leopoldina faleceu na Áustria”, conta Bakos.

Nessa primeira viagem ao Egito, feita entre maio de 1871 a março de 1872, D. Pedro 2º viajou como homem comum, pagou a expedição com suas economias pessoais e evitou ser chamado de imperador.

Dos lugares que visitou, quis conhecer todos os citados na Bíblia, além de Alexandria, Canal de Suez e da capital Cairo, onde passou oito dias. “Conta-se que D. Pedro 2º escalou a pirâmide de Quéops, a maior de todas, em apenas 25 minutos”, conta a historiadora.

“Ao ver o Templo de Karnak pela primeira vez, D. Pedro 2º parafraseou o famoso egiptólogo Mariette ao dizer: ‘Nunca se vê Karnak o suficiente’. No templo, o imperador almoçou no alto de um dos tetos contemplando a vista. Passou dois dias em Karnak”, conta a professora da Universidade Federal do Maranhão, Liliane Correa.

 

O imperador brasileiro D. Pedro 2º fez uma expedição ao Egito na década de 1870

O imperador brasileiro D. Pedro 2º fez uma expedição ao Egito na década de 1870 Brady-Handy Photograph Collection

 O imperador brasileiro D. Pedro 2º fez uma expedição ao Egito na década de 1870

 

A segunda viagem ocorreu entre 1876 a 1877 e também foi extensão de uma passagem à Europa, dessa vez para tratar da saúde da mulher, Theresa Cristina. Na realidade, a viagem começou nos Estados Unidos, onde o monarca conheceu intelectuais de seu tempo, como Thomas Edison, seguiu para o Canadá, foi até a Europa e, por fim, para o Egito. Nessa expedição, D. Pedro 2º visitou todas as 18 pirâmides do Baixo Egito.

“Em 1876, Pedro 2º fez uma viagem maior ao Egito: saiu de barco do Cairo, subindo o rio até Aswan. Lá, a imperatriz ficou alguns dias, enquanto Pedro de Alcântara seguia rio acima, em um barco menor até Wadi Halfa, hoje o Sudão. De lá, seguiu mais ao sul, voltou para Aswan e desceu o rio Nilo até o Cairo. Em todo o percurso, visitou todos os monumentos que estavam acessíveis”, descreve Correa, que, no começo de 2018, viajou ao Egito para percorrer parte do roteiro que o imperador fez nessa viagem.

“Nessa viagem, descobri que o Egito é lindo, o povo egípcio muito simpático e acolhedor, a comida é maravilhosa e que nós, brasileiros, somos muito parecidos com os egípcios. Compartilho com D. Pedro 2º o fascínio pelo Egito.”

A múmia do imperador

Na segunda viagem ao Egito, D. Pedro 2º teceu críticas ao quediva (soberano) Ismael, acusando o governante de abandonar os patrimônios históricos.

 

Museu Nacional do Rio pegou fogo e quase todo o acervo foi perdido

Museu Nacional do Rio pegou fogo e quase todo o acervo foi perdido Reuters

 

 

“Impressionado com o mau estado dos monumentos históricos egípcios, que mostravam ‘incrível vandalismo’, o imperador lamentou o fato do quediva ser luxuoso com os seus palácios, mas desleixado na conservação dos monumentos, ‘tão interessantes para o estudo do Alto Egito!’, conforme escreveu em seu diário de viagem”, resgata Bakos.

O escritor Khatlhab conta que o alerta do imperador contribuiu para que fossem tomadas as medidas necessárias para conservação dos monumentos artísticos dos Faraós. “Além disso, constrangido com as observações de D. Pedro 2º, o quediva Ismail fez uma doação ao imperador, no mínimo surpreendente, de um sarcófago contendo a múmia de um corpo feminino.”

O sarcófago, feito de madeira estucada e colorida, era uma peça rara pelo fato de nunca ter sido aberto. “Dentro do caixão, havia a múmia de uma cantora-sacerdotisa e cuja função era entoar cânticos sagrados no templo dedicado ao deus Amon, em Karnak, nos arredores de Tebas”, conta Bakos.

“Sha-amun-em-su”, nome da cantora mumificada dada a D. Pedro 2º, teria morrido com 50 anos e vivido no Egito 750 a.C.. “Os desenhos e hieróglifos do sarcófago foram transliterados e se descobriu que a cantora pertencia a um seleto grupo especial de damas que ficavam virgens por toda a vida e auxiliavam a Esposa Divina de Amon”, explica a historiadora.

D. Pedro 2º teria gostado tanto do presente do quediva que manteve sarcófago e múmia em seu gabinete de 1877 a 1889, ano em que a peça foi incluída no catálogo do Museu Nacional e permaneceu até o incêndio do dia 2 de setembro.

O Egito no Brasil

O acervo da civilização egípcia que pertencia ao Museu Nacional contava com 700 peças, entre múmias humanas inteiras, partes de múmias, animais, artefatos, amuletos e sarcófagos, a maioria pertencente ao Período Intermediário e da Baixa época egípcio (cerca de 1069- 556 a.C). O sarcófago e a múmia de Sha-amun-em-su era uma das peças mais raras da coleção.

Existem outras coleções egípcias e orientais interessantes expostas no Brasil, como as da Fundação Eva Klabin Rapaport, no Rio de Janeiro; Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo e Museu de Arte de São Paulo, SP; Museu Mariano Procópio, em Juiz de Fora; Museu Egípcio e Rosa Cruz, em Curitiba. Mas as coleções formadas por D. Pedro 1º e D. Pedro 2º durante o Brasil Império que estavam no Museu Nacional, infelizmente, não existem mais.

“Durante as pesquisas para escrever meu livro, frequentei o Museu Nacional para estudar o acervo. Tínhamos um grande acervo de egiptologia e poderíamos fazer uma viagem pelo Egito dentro do próprio Brasil”, afirma Khatlhab. “Estou indignado em saber que este grande acervo que desapareceu, que simplesmente não existe mais.”

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