Bailarinos com deficiência questionam limites no palco em performance na Bienal e diretora pede inclusão além de modismo


‘Every Body Eletric’ surpreendeu público do Sesc, em Campinas (SP), ao permitir reflexões sobre beleza dos corpos. Espetáculo terá nova apresentação nesta quinta; veja a programação. ‘Every Body Eletric’ surpreendeu público da Bienal, em Campinas
Peter Empl
Questionar o que é classificado como limitação ao apresentar inúmeras possibilidades de movimentos realizados por dançarinos com deficiências físicas. Esse foi um dos propósitos levados pelo espetáculo internacional “Every Body Eletric” (oficialmente traduzido para “Corpos Elétricos), da coreógrafa austríaca Doris Uhlich, ao público da 11ª Bienal Sesc de Dança em Campinas (SP). Ao G1, ela disse esperar pela consolidação das discussões sobre corpos marginalizados – uma das temáticas recorrentes na mostra deste ano – para que ela não fique restrita ao modismo.
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Pela primeira vez na América do Sul, a peça representada no galpão do Sesc, na noite de quarta-feira (18), prendeu a atenção dos espectadores. A performance é apresentada por três cadeirantes: um homem e uma mulher com deficiências nas pernas e um bailarino que teve amputação severa da cintura para baixo. Ao longo da obra, eles realizam não apenas movimentos sobre a cadeira, mas também no chão e usam ainda muletas e os equipamentos de locomoção sobre as cabeças ou lado dos corpos. O conceito é de “gerar energia” por meio de repetições. “Eu espero que [a tendência de levar aos palcos corpos diferentes] não seja apenas moda. Eu vejo que há muita tendência de trabalhar com minorias. Pessoas consideradas não funcionais na sociedade estão sendo trazidas ao lado de mais artistas contemporâneos”, afirma a diretora, que se comunica em inglês durante o período no Brasil.
Para ela, há trabalhos de destaque que reúnem “corpos disformes” na dança contemporânea e a proposta surge como uma ação política diante do público. O espetáculo terá nova apresentação na noite desta quinta. “O palco é um lugar onde importantes tópicos podem ser discutidos. E essa política, eu penso, não é só o que você vê no palco, mas também como você trabalha. É uma preocupação que minha companhia tem, não só levar ao palco, mas também saber como trabalhar, impactar as condições de trabalho”, explica Doris.
Espetáculo Every Body Electric terá nova apresentação, em Campinas
Theresa Rauter
Composição
As pesquisas dela com corpos “não aceitos”, lembra, começaram com pessoas mais velhas e convergiram até a elaboração do espetáculo. “É sobre muitas questões de possibilidades e não sobre o que é impossível. Doutores, sabe, todo mundo está olhando as pessoas com deficiência no aspecto do que não está funcionando, e não realmente pesquisando o que está funcionando.”
A escolha dos atores para a performance ocorreu após deficientes participarem de workshops ministrados por ela. Além disso, a coreógrafa diz que a experiência encorajou um dos bailarinos do espetáculo, Adil Embaby, que é amputado, a ingressar em uma universidade de dança. “Me disseram que deveríamos continuar fazendo algo juntos”, ressalta.
Percepções diferentes
Sobre as reações do público, Doria afirma que são similares em vários países: uma mudança de percepção sobre os limites dos corpos. “A maior reação que ouço é que, quando você assiste a peça, você vê a si mesmo. Então você vê pessoas com deficiências, mas se olha”.
A coreógrafa austríaca Doris Uhlich
Elsa Okazaki
Em relação aos espectadores que acompanharam a obra de quarta, segundo ela, a reação seguiu a mesma linha. “Em um país em que uma mulher mais velha já é considerada feia, eles mostraram o quanto pode haver de beleza em qualquer corpo. Foi uma experiência profundamente humana”, relatou a professora de filosofia Janne Marrie Gaglebin, francesa que vive há 40 anos no Brasil. “O espetáculo me prendeu, não esperava o que vi. Trouxe coisas muito interessantes em relação aos corpos dos deficientes, se movendo de várias formas”, elogiou o músico Dalgo la Rondo.
Veja página especial sobre a 11ª Bienal Sesc de Dança.

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