‘Bienal de Dança’: atleta argentina faz performance de dança com ‘luta imaginária’ para refletir sobre resistência do corpo


Lutadora de taekwondo executa movimentos frenéticos por uma hora durante solo na Bienal. Coreógrafo valoriza trabalhos com pessoas sem formação em dança; veja programação. Em um palco em formato de ringue, mas sem cordas no entorno, uma atleta argentina de taekwondo executa movimentos frenéticos de uma luta solitária, sob os olhares atentos do público no CIS-Guanabara, em Campinas (SP). A exibição de uma hora e cinco minutos, contudo, vai além do aparente teste de resistência: Maia Chigione faz performance de um solo internacional de dança contemporânea, com coreografia planejada minuciosamente para a 11ª Bienal Sesc de Dança.
Atleta argentina fez performance na Bienal de Dança, em Campinas
Santiago Orti
ATRAÇÕES: veja os destaques de cada dia
ENQUETE: em que situações você costuma dançar? “Daimón”, nome da obra, é um termo que faz referência a divindades intermediárias entre deuses e humanos, e a apresentação é coreografada pelo colombiano Luis Garay, que atua na Argentina. O espetáculo leva ao público a visão de uma luta contra adversário imaginário, mas foi pensado para permitir reflexões sobre as possibilidades de mudança de um corpo sob treinamento. Ao final, chega a indicar uma espécie de “dança de resistência” e a luta da protagonista contra si mesma. “Essa busca pela transformação e desagregação dos movimentos não tem limites. É muito interessante”, falou a atleta ao classificar o espetáculo como “desafiante”. Embora participante de espetáculo cênico apresentado na noite de terça-feira (17) e que será repetido nesta quarta, ela diz que seguirá no esporte e a meta é a Copa do Mundo de Taekwondo na Eslovênia, em 2020.
Performance
Sobre o palco transformado em ringue, ao som de trilha “acelerada”, a performer inicia a apresentação com golpes similares aos do boxe e percorre o espaço, rodeado pelo público. Em seguida, alterna passos e movimentos – alguns deles extramente rápidos sob uma iluminação intermitente, e em outra parte alternava para uma referência da dança, antes do ritmo original.
A luta feita sem pausa não ficou restrita aos olhares dos espectadores. O bombeiro civil Naílson Barreto, de 61anos, trabalha na segurança do local e, ao longo da jornada, entrou no espaço da mostra e conferiu parte do espetáculo. Ao final, contou ao G1, pediu para medir os batimentos cardíacos de Maia. “Era para a pulsação estar bem acelerada, mas não estava. Ela tem essência de educadora física, um fôlego impressionante e um físico extraordinário. Muito difícil fazer essas movimentações, com esse ritmo, durante mais de uma hora. É uma capacidade espetacular”, afirmou. Luis Garay dirige performance no espetáculo ‘Daimón’
Cláudio Liza Júnior
Expressão e referências
Garay valorizou a performance da atleta na Bienal. “É interessante ver como a Maia constrói outra forma de expressar seus movimentos, outra forma de resistência”. Ele lembra que, em alguns dos últimos trabalhos realizados, procurou encenar com pessoas sem formação em dança, incluindo participações de uma fisiculturista e uma dançaria de pole dance. “É uma intenção minha pesquisar corpos que já têm o conhecimento de um ofício específico, mas não de dança, e tirá-los do território. A dança não tem a ver com o esporte, mas discuto com Maia os mesmos conceitos que faço com os dançarinos com quem trabalho, como o de construir um padrão para a coreografia”, explica Garay.
Ainda segundo o diretor, a pergunta deixada no ar é como a disciplina torna o ato de um corpo natural e como isso pode ser mudado. “Ela transforma seus atos e biologia ao treinar novos movimentos, isso é muito interessante”, ressalta. A professora de artes Letícia Borges, de 33 anos, conta que observou muitas referências de dança, inclusive populares. “Quando ela fez algumas giras ali, me lembrou algo folclórico. Mas trouxe dança e muitas referências, misturando tudo a um pouco de fitness e artes marciais.”
Veja página especial sobre a 11ª Bienal de Dança.

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