CONSCIÊNCIA

Enfadonho tem sido o debate sobre as questões envolvendo o negro no Brasil. Todos os anos, nesta mesma data, e apenas nesta data, a sociedade brasileira é instada a pensar sobre o papel do negro na construção do país que todos desejamos, sem que isso tenha gerado resultados objetivos favoráveis à convivência integrada entre negros e outras etnias no Brasil até o momento.

Sabe-se que o negro, em sua maioria, situa-se no estamento social mais baixo por conta de suas raízes históricas no país, no qual, aliás, é tão estrangeiro como qualquer outro descendente de imigrantes europeus. A diferença é que a sua vinda para esta terra teve o caráter estritamente mercantilista e de força de trabalho escravo.

Não obstante o negro no Brasil tenha um passado de nefasta memória, ninguém deve se ater a ele para exigir benefícios ou esmolas no presente. É preciso demonstrar força e personalidade para suplantar os revezes e ser vencedor conforme as regras do jogo.

Exige-se do competidor negro mais determinação,garra, conhecimento, astúcia e diplomacia do que dos demais, de modo que possa ser minimamente respeitado.

Esta é uma dura realidade, mas é a realidade da vida no Brasil. Esta terra, havida como cosmopolita, ainda está presa a um ranço sub-reptício de racismo que aflora em momentos oportunos; basta conjurar e ele aparece.

Diferente de outras nações em que o trato da questão racial é mais direta e aberta, no Brasil há melindres quanto ao “politicamente correto” e a questão é tratada sempre com panos quentes.

Aliás, tantos foram os lenitivos para a questão, que ela perdeu muito de sua essência racial, passando a ter cunho eminentemente social. Se o negro é bem sucedido financeiramente ou destacado em alguma atividade, o racismo é, enquanto perdurar o êxito,escondido em catacumbas.

Se for pobre e hipossuficiente, prepare-se: o racismo brilhará em todo o seu resplendor nas pequenas coisas, como se a cor da pele de alguém refletisse o seu potencial ou caráter.

Uma verdade nua e crua, que ninguém deseja aceitar, diz respeito ao fato de que o racismo maquiado, no Brasil,tornou-se um traço social e cultural.

Tanto brancos como negros sabem disso, porém não enfrentam a questão diretamente, com medo da crítica de ambos os lados e do exterior.

Daí porque é preferível que o Estado, responsável por botar ordem na casa, preconize políticas públicas que sejam isentas de conteúdo racial, prendendo-se a aspectos comuns a negros,brancos e outros: a pobreza, a falta de educação e ausência de perspectiva de futuro.

Se as ações governamentais se preocuparem em eliminar a pobreza, dar educação de qualidade ao povo e gerar possibilidades para que o cidadão, por mérito próprio, adquira qualidade devida decente e digna, a questão do negro estará contemplada.

É evidente que em um país, como já dito, com racismo maquiado, é necessária a existência de mecanismos que evitem a contaminação dessas políticas públicas. Isso é o que importa.

Não preciso que gostem de mim pela cor da minha pele, e não tenho o direito de impor isso a ninguém; prefiro ser respeitado pelo meu caráter, pela qualidade do faço e pela minha formação.

O gostar é algo muito particular,íntimo. Para a convivência em sociedade não é preciso que gostemos ou amemos o próximo; basta respeitar suas particularidades e estabelecer pontos de convergência no tocante a princípios e valores essenciais à manutenção de uma sociedade plural, organizada e ética.

O Estado tem o dever de assegurar a paridade de armas nessa competição pela vida em sociedade. Garantir a todos,indistintamente, o mesmo tratamento, de modo que apenas o mérito seja elemento diferenciador.

Se a origem de toda essa celeuma foi a ignorância humana, abençoada pelas religiões reinantes, hoje a solução passa por um Estado laico, ético e isento de paixões, que possa estabelecer a paz social e o progresso atendo-se a valores maiores do que a simples cor da pele de alguém. Isso é consciência. Consciência Social.

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