Crise de consciência no Vale do Silício

Brexit, Trumpfake news, pós-verdade, radicalismos políticos mundo afora. Nos últimos tempos, diante de diversas mazelas, nos acostumamos a apontar para um mesmo culpado: o Facebook.

Em artigo publicado esta semana, a Wired, revista norte-americana de tecnologia, conta como rede social foi parar no banco dos réus.

Em 2012, a plataforma que mais disseminava notícias era o Twitter. Como não podia comprar o rival, Mark Zuckerberg o copiou: “Ele ajustou o feed do Facebook para incorporar notícias”, diz a matéria. Em 2013, já havia superado o Twitter e, em meados de 2015, passou o Google, se tornando líder no redirecionamento de leitores para sites da imprensa.

Mas o Facebook não parou para pensar nas consequências dessa sua liderança. A empresa se preocupava em “eliminar a pornografia e proteger os direitos autorais”, mas quase não discutia as grandes questões que movem o jornalismo. “O que é justo? O que é um fato? Como sinalizar a diferença entre notícias, análises, sátiras e opiniões?”. O Facebook se escondia atrás da ideia de que era apenas uma empresa de tecnologia, uma “plataforma para todas as ideias”, imparcial e isenta de responsabilidade sobre os conteúdos que veiculava.

E foi assim que a empresa se recusou a hierarquizar os posts. Reportagens investigativas, vídeos de gatinho, fofocas de celebridades, opiniões pessoais… Para a plataforma, tudo tinha a mesma aparência e a mesma importância. “O Facebook dizia que isso era democratizar a informação. Você vê o que seus amigos querem que você veja, não o que algum editor da grande mídia escolheu”. Mas essa opção pela neutralidade, lembra a Wired, já era uma decisão editorial.

Enquanto o Facebook se debatia com seu dilema – ser uma empresa que dominava a mídia, não uma empresa de mídia –, a candidatura de Donald Trump decolava, exatamente por compreender muito bem a dinâmica das redes. O Facebook foi o canal perfeito para a “operação política de marketing direto mais eficiente da história”.

Ao final da campanha presidencial, as fake news estavam gerando mais engajamento que as notícias verdadeiras. Meses depois, começaram a surgir suspeitas de que os russos haviam utilizado o Facebook para influenciar a opinião pública americana, de um jeito que não podia ser considerado “nem uma surpresa, nem uma anomalia”: foi só encontrar gente “com raiva e com medo e, aí, usar as próprias ferramentas do Facebook” para fazer anúncios a esses grupos específicos. Robôs e perfis falsos apenas potencializaram aquilo que era a essência da rede. E agora estava claro que qualquer um podia se aproveitar de sua lógica de bolhas e viralização para difundir o que bem quisesse.

Para preservar sua autoimagem de plataforma aberta e imparcial, o Facebook fechou os olhos para o chorume que circulava pela rede – afinal, chorume também é audiência, o que significa cumprimento de metas e bônus para os executivos.

Mas, depois do Brexit e da eleição de Trump, acusado de disseminar ódio e radicalismo, responsabilizado pela ascensão de líderes questionáveis no mundo todo, o Facebook não conseguiu se livrar da culpa. Ex-executivos da empresa vieram a público declarar que estavam envergonhados e arrependidos: “Não sei se a gente compreendia de verdade as consequências do estávamos fazendo”, disse Sean Parker, co-fundador do Napster e primeiro presidente do Facebook.

Dentro da empresa, executivos começaram a admitir que, com um modelo de negócio fundado na publicidade e na busca por cliques, o Facebook ajudara a criar um sistema que premiava o “sensacionalismo, e não a exatidão ou a profundidade”, dispersando um conteúdo cada vez mais radical e polarizado.

Na defensiva, Zuckerberg anunciou medidas para combater as fake news, disponibilizou uma ferramenta de checagem de fatos, criou uma espécie de laboratório de jornalismo dentro da empresa, disse que iria priorizar “interações significativas”, com “menos posts sem substância, menos vídeos a que você assiste sem pensar”. As medidas têm eficácia questionável, mas marcaram o momento em que o Facebook enfim assumiu que devia ter responsabilidade pelo conteúdo que faz circular, com mais respeito pelos usuários e pela verdade.

A matéria da Wired está cheia de intrigas de bastidores, reuniões a portas fechadas, vazamentos de informações, grandes interesses em conflito. Mas, no fundo, conta uma história batida: a de um jovem que sentiu seu tecno-otimismo ruir quando percebeu que sua invenção podia ser usada para fins escusos. A de alguém – uma geração inteira? – que demorou a reconhecer seu impacto negativo sobre o mundo.

Capa da revista Wired com Mark Zuckerberg

Uma matéria do Guardian faz um retrato ainda mais sombrio dessa geração ao traçar o perfil de ex-funcionários de empresas como Google, Twitter e Facebook que preferiram se afastar da vida digital.

Esses jovens programadores, engenheiros e executivos, diz o jornal, ajudaram a desenvolver inúmeros métodos para tornar os smartphones extremamente viciantes, mas agora estão denunciando como o Vale do Silício está moldando nosso jeito de viver e pensar. Como a onipresença (muitas vezes imperceptível) das tecnologias restringe nossas escolhas e nossa vontade.

Anos atrás seria impensável ouvir esse tipo de autocrítica no coração do Vale do Silício, que seguia firme na crença de que a circulação livre e total de informações e o progresso irrefreável da tecnologia sempre iriam melhorar o mundo.

O mea culpa de Zuckerberg e de outros geninhos digitais de sua geração mostra como a utopia tecnológica nos trouxe a esse cenário distópico de pós-verdade, de avalanche de informações, de um ruído incessante que nos rouba a atenção.

Pior que a qualidade dos conteúdos das redes sociais é a maneira como elas manipulam nosso vício em tecnologia, alimentam nossa compulsão por rolar telas infinitas à procura por barulhinhos e sinaizinhos que notificam a chegada de mais um post, uma mensagem, um e-mail, um amigo, um seguidor, um glorioso like – esses mínimos pixels que disparam em nosso cérebro uma inevitável sensação de prazer e recompensa.

A guerra por nossa escassa atenção recorre ao desenvolvimento de tecnologias que querem nos fisgar a qualquer custo e, para tanto, apelam ao nosso emocional, ao ódio, ao medo. O problema não é só o algoritmo, as bolhas, os robôs, os perfis falsos, as fake newsA própria economia da atenção gerada por essa utopia tecnológica de mundo sempre conectado nos torna mais impulsivos, radicais, irracionais – e, claro, distraídos para tudo aquilo que acontece fora da tela, no mundo real. Como se a gente tivesse internalizado a dinâmica das redes no nosso modo de pensar.

“Se a política é a expressão da vontade humana, no plano individual e coletivo”, pergunta a matéria do Guardian, “e se a economia da atenção está acabando com nossa capacidade de lembrar, de ponderar, de tomar decisões por nós mesmos, haveria esperança para a democracia?

A modo de resposta, um ex-estrategista do Google entrevistado pelo Guardian oferece uma reflexão: quem melhor previu o futuro não foi George Orwell, mas sim Aldous Huxley, pois, antes de ser ameaçada pela coerção do Estado vigilante de 1984, a democracia iria ruir pela sutil manipulação psicológica do nosso insaciável apetite por prazer e distração, tema de Admirável Mundo Novo.

Ainda não dá para saber se a crise de consciência do Vale do Silício vai conseguir refrear os efeitos nocivos das redes sociais e da tecnologia na vida pública – as próximas eleições presidenciais, as nossas, estão logo aí. Mas parece que, quando Zuckerberg enfim ensinar seus algoritmos a distinguir a verdade da mentira, já estaremos distraídos demais para perceber.

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