Entre os concorrentes ao Oscar de melhor diretor, há uma abundância de nomes notáveis

Mas, mesmo dentro desse grupo reluzente de indicados para os prêmios desta 90.ª edição do Oscar, a categoria de diretor se destaca. Quer um filme sobre diversidade que vai fazer história? Está na lista. Indicados pela primeira vez? Estão na lista. Veteranos que há muito tempo já mereciam um prêmio? Também estão na lista.

Só falta uma coisa no caso dos indicados para o Oscar de melhor direção este ano (sem contar o diretor de The Post – A Guerra Secreta, Steven Spielberg, e Sean Baker, de Projeto Flórida), que seria uma competição implacável entre eles. Os cinco indicados – Guillermo del Toro (A Forma da Água), Jordan Pele (Corra!), Greta Gerwig (Lady Bird – A Hora de Voar) e Paul Thomas Anderson (Trama Fantasma) e Christopher Nolan (Dunkirk) pelo contrário, tecem elogios efusivos aos seus colegas nas suas campanhas publicitárias dos filmes que dirigiram.

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Como todo mundo, eles, aparentemente, chegaram à conclusão de que o grupo de cineastas candidatos ao prêmio este ano é muito bom. “Todos, em minha opinião, por diferentes razões, tiveram um dos seus melhores momentos”, disse Del Toro em uma entrevista recente. “Paul Thomas Anderson realizou um filme fiel às suas ideias, exigente e profundo na maneira como ele é sempre. Chris Nolan criou uma obra de cinema que é uma sinfonia. Greta Gerwig, com seu primeiro filme, traz um trabalho que na aparência é simples, mas é incrivelmente complexo, bem calibrado do ponto de vista audiovisual e incrivelmente profundo. E Peele compartilhou seu amor pelo horror – gênero que raramente alcança as honrarias mais altas do Oscar”, contou ainda Del Toro.

“Somos irmãos em armas porque optamos por um gênero que normalmente não entra na discussão e usando nossas alquimias pessoais transformamos em outros gêneros. No meu caso, transformei em teatro musical, em comédia. Peele converteu numa parábola social, com um poder imenso.”

Del Toro, um mestre meticuloso das fantasias góticas e sombrias, é considerado o favorito entre os cinco por seu filme de época suntuosamente realizado, candidato ao Oscar em 13 categorias. Ele já conquistou o prêmio atribuído pelo Sindicato dos Diretores de Hollywood pelo seu filme. Mas seja quem for o vencedor, este será o seu primeiro Oscar de direção – ou se nenhum ganhar o prêmio de melhor roteiro no início da cerimônia, seu primeiro Oscar, ponto final.

Greta Gerwig, cujo drama sobre a transição de uma menina para a idade adulta se centraliza depois, habilidosamente, nas relações entre mãe e filha, é apenas a quinta mulher indicada para um Oscar de direção nos 90 anos de história da premiação, uma indicação que a deixou orgulhosa, mas mesmo assim vai continuar a se referir abertamente à vergonha dessa estatística, símbolo dos grandes desequilíbrios de gênero na indústria cinematográfica. Mas em uma Hollywood muito retrógrada em termos de inclusão, ela e Jordan Peele – ambos estreando no campo da direção e ainda jovens – representam o futuro. Na manhã em que foram anunciadas as indicações para o Oscar, uma das primeiras chamadas que Peele recebeu foi de Greta Gerwig.

“Sinto-me ligada a ele porque fazemos parte desse grupo que vem surgindo. Estamos nessa jornada juntos, de algum modo. É o primeiro filme de cada um de nós. E eu amo seu filme. É inovador, maravilhoso. Merece tudo!”

Se Gerwig conquistar o prêmio, ela será a segunda mulher a receber um Oscar de melhor direção depois de Kathryn Bigelow (por Guerra ao Terror, de 2008). Se Peele ganhar, será o primeiro cineasta negro a receber o prêmio (os indicados anteriormente foram John Singleton, Lee Daniels, Steve McQueen e, no ano passado, Barry Jenkings).

Peele realizou um thriller empolgante impulsionado por uma forte crítica social do racismo latente. O fato de Corra!, lançado em fevereiro do ano passado, ter chegado à lista dos indicados foi uma confirmação inesperada.

“Sonhava com este momento desde meus 13 anos. E para ser honesto houve momentos em que acreditei nisso e outros em que perdi a crença. E ela chega como uma importante lição e uma realização para mim. E é importante para muitas pessoas, aqueles que apoiaram o filme e os que tiveram o mesmo sonho, mas não conseguiram realizá-lo pelas mais diversas razões”, analisou ele.

É o caso do próprio Del Toro, terceiro cineasta de nacionalidade mexicana indicado para o Oscar de melhor diretor, o que é ainda mais significativo numa época em que a retórica anti-imigração permeia a política americana. Com essa indicação, ele vem se juntar a seus amigos e concidadãos, Alfonso Cuaron (que recebeu um Oscar em 2013 pelo filme Gravidade) e Alejandro Inárritu (indicado em 2006 por Babel e vencedor da competição de 2014 por seu filme Birdman ou a Inesperada Virtude da Ignorância, e em 2015 com O Regresso).

O trio apelidado de “Os três amigos” desde quando tomaram Hollywood de assalto há mais de dez anos sempre se procura em busca de feedback e conselhos no campo da edição.

“Quando chegamos a esse ambiente era muito diferente em se tratando de diretores latino-americanos nesse setor. Houve muita luta no sentido de mudar as coisas e chegarmos até aqui, e isso merece ser comemorado”, confessou Del Toro.

E temos também Paul Thomas Anderson e Christopher Nolan – que estão entre os cineastas mais ambiciosos e mais reverenciados das duas últimas décadas, ambos com 47 anos de idade. Até hoje, nenhum dos dois levou um Oscar para casa. Esta é a primeira vez que Nolan entra na categoria de melhor diretor e é a segunda vez de Anderson, depois da sua indicação em 2007 pelo filme Sangue Negro.

Os dois diretores trilharam caminhos bem diferentes. Anderson é um cineasta independente que não se insere em nenhuma classificação; Nolan é um adepto dos grandes planos e atraído pelos espetáculos grandiosos – mas os dois são devotados ao celuloide e nos últimos anos se juntaram na luta para preservar o cinema num setor que se torna cada vez mais digital.

Durante o Festival Internacional de Cinema de Santa Bárbara, ao elogiar cada um dos filmes dos seus colegas indicados para o prêmio de melhor direção – “todos os filmes são um trabalho incrível” –, Nolan observou que desde que levou os filhos para assistir a Trama Fantasma eles o têm chamado de Mr. Woodcock, por causa do caráter egocêntrico e exigente do protagonista.

É interessante imaginar uma troca de papéis: que tal se Peele dirigisse A Forma da Água? E se Greta Gerwig dirigisse Trama Fantasma? A impossibilidade dessas hipóteses se tornarem reais apenas reforça como ninguém conseguiria realizar qualquer desses filmes exceto aquele que o fez. E cada um dos seus criadores escreveu o roteiro, sozinho ou em conjunto com outra pessoa. E todos esses filmes tiveram êxito devido à imaginação idiossincrática e expansiva de quem o realizou. E nesse grupo não há nenhuma escolha ruim. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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