‘Ex-Pajé’ é uma expedição à selva da imagem

Luiz Bolognesi discute o etnocídio indígena e testa as franjas da língua cinéfila em “Ex-Pajé”, uma jira documental que levou a Berlinale à floresta 

Rodrigo Fonseca
Ardendo na febre do fundamentalismo religioso cristão, como sinal de alerta para a institucionalização gradual da jihad na sociedade brasileiro, Ex-Pajé, documentário de uma beleza plástica perturbadora exibido neste sábado na Berlinale, permite-se, em muitos momentos, desgrudar-se da querela etnográfica e do denuncismo ao qual se associa vez por outro para ir ao supermercado. Literalmente. E, às vezes, ir a uma Loteria para acertar o pagamento de uma conta. Por se tratar de um exercício documental de cinema direto, ou seja, sem intervenção da câmera na cena, seria normal a inclusão de ações cotidianas na narrativa engendrada por Luiz Bolognesi na direção. Mas há algo de arejado demais nessas digressões propostas pelo filme ao seguir os passos de um ex-sacerdote da tribo Paiter Suruí, na Amazônia, para, a partir dele, mapear a erosão das práticas culturais daquela sociedade. Por proximidade dos credos evangélicos, o tal xamã reformado do título, Perpera, cedeu à Sagrada Escritura e aos desígnios do Filho do Homem. Mas como ele segue comendo inhame do modo como seus antepassados aprenderam com os deuses da floresta, nem tudo o que a Bíblia diz parece ser o caminho, a verdade e a vida. Daí, indo comprar Café Pilão ou um Jequiti qualquer… ou mesmo indo Loteca ficar em dia com seus impostos… Perpera bate um papo com espíritos. Às vezes, na rua; às vezes, na beira de um rio. E essa conversa não necessariamente costura pra dentro da linha dramática do filme: uma reflexão sobre o desmatamento das ancestralidades, sobre a extinção da memória. As conversas são, às vezes, puros respiros, à imagem e semelhança da Natureza, num grau de arejamento que serve mais para a elaboração de planos sofisticadíssimos em termos de uso da luz (na alquimia entre as lentes do fotógrafo Pedro J. Márquez e a aquarela de tons de verde da mata local) do que servem à construção de um padrão piqueteiro típico de filmes sobre índios em risco (tipo Martírio, Corumbiara ou a gema 500 Almas). A maior exceção à regra é o poema ultrarromântico Serras da Desordem (2006), que fala de banzo sob uma ótica existencialista. Mas hoje, sob os olhos curiosos do Festival de Berlim, um diretor mais conhecido por seu trabalho como roteirista (em Bingo – O Rei das Manhãs e Chega de Saudade) nos deu mais uma quebra de conduta sociológica, num filme de traqueia larga, autoimaginativo, capaz de driblar convenções e se lançar numa pesquisa de formas.    

Papos tribais sobre tradições e espíritos

Existe um conceito de dramaturgia na Antropologia da Imagem, derivado dos estudos do historiados americano David Bordwell, chamado de 3º Campo, que é aplicado para filmes cujo cerne é o esgarçamento máximo das fronteiras da imagem, sem submissão a uma ideia de jornada de personagem (cerne do 1º Campo) ou a algum debate social, político ou comportamental (eixo do 2º Campo). Teóricos como o português João Maria Mendes (autor do obrigatório livro Culturas Narrativas Dominantes) ou o baiano José Carvalho usam Procurando Nemo (2003) como um exemplo bom do dito primeirocampismo (quando Nemo for achado, encerra-se a jornada e termina o longa); citam O Poderoso Chefão para ilustrar o segundocampismo (não importa se Michael Corleone terá ou não redenção, vale mais o debate que corre a partir dele; e para o tal terceirocampismo, mais recente, oriundo do que Jean-François Lyothard chama de pós-modernidade, teríamos os trabalhos dos anos 1990 e 2000 do galês Peter Greenaway (a partir de O Livro de Cabeceira) como referência.

Aquarela de verdes da mata metafísica

Existem diretores que trançam o e o 3º campos, mesclando discurso e pesquisa formal radical, como é o cinema dos filipinos Brillante Mendoza e Lav Diaz e, agora, Ex-Pajé, que se quer river movie, tapera movie, hipermercado movie… movimento pleno. Belo acerto para um cineasta que veio da palavra e escrita e já tinha flertado com o indigenismo em seu desenho animado História de Amor e Fúria, premiado em Annecy, na França, em 2013. Que Berlim lhe renda frutos à altura de sua coragem de querer ser cinema… antes de ser manifesto. De ser os dois. De ser selva e tela. Langue e parole, num P.A. e P.G. saussuriano envolvente.

 

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