Hóspede detetive e firma de fachada | Maksoud: herança é comprada com dinheiro do próprio hotel de SP

Este post faz parte de uma série de quatro, que começou na segunda-feira

O cheque usado por Henry Maksoud Neto para pagar a parte de Vera Lúcia Barbosa na herança do hotel Maksoud Plaza não é de uma conta pessoal dele, mas de uma empresa chamada Portillo, que pertence ao grupo econômico do próprio hotel.

Conforme o blog noticiou na segunda-feira, Vera obteve em 2014 na Justiça o reconhecimento de paternidade de Henry Maksoud, fundador do hotel, morto no mesmo ano. Ela seria filha de Maksoud e da cozinheira Jaci, que trabalhou na casa da mãe dele no começo dos anos 1950. Neto comprou o terço correspondente à parte de Vera no Maksoud Plaza por 2,640 milhões, em 240 parcelas de R$ 11 mil. O valor do hotel é estimado em mais de R$ 400 milhões.

Pelo que dizem os outros dois herdeiros necessários (diretos na linha sucessória), Roberto e Cláudio Maksoud, Neto teria pago a parte de Vera com a própria herança. “O dinheiro não é dele, é do hotel. E o hotel é nosso”, diz Claudio. Neto é herdeiro testamentário do patrimônio da família, assim como a segunda mulher de Henry Maksoud, Georgina. A legitimidade do testamento é contestada na Justiça por Roberto e Cláudio. Procurado pelo blog, Henry Neto informou por intermédio de sua assessoria que não se manifestaria. Seu advogado, Marcio Casado, informou que “Henry Maksoud deixou um testamento particular. Esse documento já teve os seus requisitos formais examinados pela justiça de São Paulo, em decisão transitada em julgado.” Vera também não quis falar.

(Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal)

O advogado de Vera,

A Portillo seria uma empresa de fachada utilizada para movimentar o ativo financeiro do grupo Maksoud, que é composto por pelo menos cinco outros empreendimentos (a Hidroservice Engenharia Ltda; a HM Hoteis e Turismo S.A.  — Maksoud Plaza São Paulo; a Manaus Hoteis Turismo S.A.  — que constrói um hotel em um terreno de 152 mil m2 em área nobre da capital amazonense, em frente ao Rio Negro, ao lado do renomado Hotel Tropical e próximo ao principal shopping center da cidade; a HSBX Empreendimentos S.A. — Maksoud Plaza Hotel e Shopping Center Bauru –; e a KXYZ Tecnologia S.A.).

Entenda

A história do administrador de sistemas Fábio Bersan Rocha, 49 anos, ajuda a entender a função da Portillo. Lutando há quase 20 anos em um processo trabalhista contra a empresa de informática Sisco, do grupo Maksoud, Rocha reclama o pagamento de um montante hoje superior a R$ 700 mil, referente principalmente a horas extras. “Não recebi nada até agora. E tem muito mais gente processando a Sisco. Funcionários do Brasil inteiro. Essa empresa prejudicou um mundo de pessoas”, diz.

De acordo com o advogado de Rocha, Onofre de Moraes Pinto, as penhoras determinadas pelo juiz não encontravam saldo nas empresas do grupo Maksoud para cobrir a dívida trabalhista.

Moraes se perguntava como um grupo econômico cujo patrimônio é estimado em mais de R$ 500 milhões estava sem recursos para pagar seu cliente.

Hóspede detetive

Em julho do ano passado, Rocha esteve em São Paulo para fazer um curso e, por orientação de seu advogado, hospedou-se no Maksoud Plaza. “Tudo foi muito confuso desde o início. Informaram que a nota fiscal teria de ser emitida pelo site onde eu fiz a reserva, e não pelo hotel”, conta Rocha.

Ele lembra: “No fim, eles me deram como recibo um papel timbrado em nome do Maksoud, e a minha via do cartão veio com outro CNPJ”. De acordo com o advogado, “a empresa (Portillo) é uma empresa de fachada, criada para blindar o patrimônio do grupo”. “Assim, os credores nunca chegam ao dinheiro”, explica.

O papel timbrado do Maksoud (ao alto), apresentado pelo hotel a título de recibo; e a via do cartão de crédito referente ao pagamento das despesas: CNPJs diferentes

Quase lá

Quando o advogado de Rocha apresentou na Justiça as evidências da existência de uma empresa de fachada que movimentava o dinheiro do grupo, o juiz deferiu bloqueios judiciais na Portillo.

Veja o Acórdão completo.

Veja o Despacho do Tribunal.

A Portillo entrou com embargos à execução. No dia 7 de dezembro último, o juiz indeferiu. Ainda cabe recurso. “Eles estão malhando em ferro frio. Vão tentar postergar até onde podem. Mas quem lê o acórdão vê que as chances deles agora são bem pequenas”, diz Onofre.

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