Longevidade e mercado de trabalho

Nilton Molina

Nilton Molina Gazeta Digital

Muito se debate atualmente sobre os impactos da tecnologia, a extinção e o surgimento de novas profissões. Pouco se fala, no entanto, sobre o futuro da atividade laborativa das atuais gerações X e Y e sua participação nas empresas. Diante de tantas dúvidas e incertezas, podemos escrever na pedra ou em algum recurso tecnológico mais moderno – uma afirmação: o futuro do mercado de trabalho é essencialmente grisalho. E eu não falo isso apenas porque passei dos 80 anos em plena atividade laborativa.

 

Cenário que leva à reflexão.

As mudanças demográficas pelas quais o Brasil está passando não são segredo para ninguém. O brasileiro está mais longevo. Em 1980, a expectativa de vida, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), era de 62,6 anos. Quase 40 anos depois, em 2018, a expectativa saltou parra 76 anos. Somado a este cenário, o país também passa por uma redução gradativa da taxa de fecundidade: de 4,1 em 1980 para 1,7 em 2015, quantidade inferior à reposição.

 

Mas o que isso tem a ver com mercado de trabalho? A resposta é muito simples. Se o brasileiro está vivendo mais e a quantidade de jovens está cada vez menor, não tem outra saída: as empresas precisarão se adaptar para receber, cada vez mais, uma mão de obra mais velha.

 

Este, no entanto, não é um desafio apenas de empregadores, mas, também, de empregados e até do governo. É preciso que as empresas e suas respectivas áreas de recursos humanos estejam adequados em três perspectivas às novas realidades do mercado.

 

Desafios são latentes.

A primeira delas é simples e direta: refere-se à oferta de oportunidades de trabalho para profissionais mais maduros. Estimativas apontam que, em 2030, 30 milhões de pessoas terão pelo menos 65 anos. É preciso, no entanto, criar condições laborativas para que esta população possa permanecer ativa. Sob uma segunda perspectiva, empregadores precisam se atentar e, principalmente, combater, ao que chamamos de etarismo. Trata-se do preconceito com a idade das pessoas. Hoje percebemos que, para muitas empresas, os profissionais grisalhos ou são muito velhos ou muito caros.

 

O terceiro desafio para os empregadores é a integração geracional. Solucionados os dois primeiros pontos, é necessário que as empresas promovam a inclusão dos profissionais mais velhos com os mais jovens. A promoção entre experiência e inovação são extremamente saudáveis e pode trazer resultados exponenciais nas organizações.

 

Sob a óptica da responsabilidade do profissional, é fundamental pensar em sua capacitação. As pessoas com mais de 50 anos precisam ficar atentas às necessidades de atualização e capacitação, seja para atuar na própria atividade, seja para estarem preparadas para a realização de uma transição de carreira.

 

Por fim, destaco que, neste contexto, o governo tem um importante papel de fomentar e apoiar iniciativas que visam a integração desta população 50+ à sociedade, principalmente no que diz respeito ao mercado de trabalho. Sob este viés, o Instituto de Longevidade Mongeral Aegon desenvolveu uma proposta de projeto de lei em parceria com a Universidade de São Paulo: o Regime Especial de Trabalho do Aposentado (Reta).

 

Este projeto tem como objetivo facilitar a participação de pessoas aposentadas no mercado formal de trabalho através da criação de um regime com carga horária diferenciada e flexibilidade para o empregado. Para o empregador, a contrapartida está na tributação.

 

A longevidade não é futurologia, é questão do presente. Os impactos deste fenômeno abrangem diferentes esferas, como saúde e habitação. No entanto, em um país com mais de 12 milhões de desempregados e onde mais de 5,7 milhões de lares vivem com a renda de pelo menos um idoso, pensar em soluções para o mercado de trabalho grisalho é urgente, antes que seja tarde demais.

 

 

Nilton Molina, presidente do Instituto de Longevidade Mongeral Aegon

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