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‘Mãe de merda’

Coloquei protetor solar, canga, toalha, boné, água, frutas e o baldinho na bolsa e segui para a praia. Era apenas o segundo dia de férias e escolhemos um lugar calmo, poucas ondas, faixa curtinha de areia, um paraíso, já que dava para ficar debaixo do guarda-sol com um olho no meu meu livro e o outro no meu filho, que é daqueles que passam o dia dentro d´água.

De repente um carro (!) entra na areia.  Quando passa por mim, vejo que há um senhor de idade no banco do carona. Deve ter dificuldade de locomoção, pensei. O automóvel vai até o fim da praia, faz o retorno e noto que o motorista está distraído, olhando para um lado e pro outro, provavelmente na escolha de um lugar para deixar o idoso. Ele segue dirigindo sem prestar atenção ao que tem pela frente e, em poucos instantes, vai passar por mim novamente. Olho para beira do mar e percebo que meu filho encontrou uma conchinha e vem correndo, feliz, me mostrar. O carro vai atingi-lo. Entrei em desespero e comecei a berrar: “Presta atenção, cara! Tem criança na areia!”

O tal homem brecou bruscamente. Ainda estava com o idoso ao seu lado e ficou nervosíssimo, mas não por ter se descuidado e quase atropelado uma criança, mas sim porque uma mulher – eu – chamou sua atenção. Sabemos o que uma mulher que grita é, né? Uma histérica.

“A culpa é sua! Se você cuidasse do seu filho nada disso teria acontecido”, urrou o homem, já descendo do carro e vindo para cima de mim para me explicar que a culpa por aquele quase atropelamento era minha, uma ‘mãe de merda’. Esse “homem de bem”, em vez de me pedir desculpas, dizer que se distraiu, sabe como é, eu erro, tu erras, nós erramos, decide me atacar. E daquela forma que o mundo ataca uma mãe que está sozinha com seu filho, na praia ou na vida: dizendo que o problema é ela. Que não previu, não se antecipou, não evitou, não educou seu filho corretamente. Ele declarou em alto e bom som, para quem quisesse ouvir, que eu era a responsável por aquele quase acidente. Por aquela quase tragédia. Tentou me constranger e logo obteve ajuda da família, que relativizava o meu desespero, afinal o motorista ‘também era pai’, ou seja, eu jamais poderia taxá-lo de irresponsável. Como se não bastasse todo o mansplaining, os representantes da tradicional família brasileira acharam por bem se instalar ao meu lado na areia, com direito a risadinhas pelo meu “show” e som alto, afinal eles podiam escutar a música que quisessem já que eu não era “a dona da praia”.

Engraçado que o homem, quando se declara publicamente pai, evoca um ilusório atestado moral de bons antecedentes. Já a mulher, quando se apresenta como mãe, é vista ora como descompensada ora como relapsa, dependendo do gosto do freguês. Fui logo taxada como a histérica da praia, mas se estivesse lendo meu livro e não conseguisse impedir o atropelamento (bate na madeira!), seria sumariamente declarada culpada, onde já se viu levar o filho para a praia e se distrair com uma biografia do John Lennon ?, me condenariam os comentaristas de portal.

Quantas vezes você ouviu por aí as mães sendo culpabilizadas por tudo de ruim que acontece com seus filhos? Sempre. Onde estava a mãe desse menino, que deixou ele sair sozinho? – Não à toa sumiu, agora não adianta ficar chorando na tevê, vaticinam os telespectadores. Se a criança vai mal na escola, a culpa é dela, claro, a mãe trabalha demais e não cuida direito do próprio filho. Doente? A mãe deixa o moleque pegando friagem sempre! Tá gordo? Claro, só come porcaria, ‘a que botou ele no mundo’ não sabe nem cozinhar direito. Magro demais? Isso é porque a mãe não tem pulso e não o obriga a comer. Mas sobre o pai? Nenhuma palavra, sequer perguntam se ele existe ou onde estava. A não ser que ele apareça na praia, dirigindo seu carro irresponsavelmente na areia, aí é só sacar sua CNP, Carteira Nacional de Paternidade, para que todas suas faltas sejam perdoadas.

Os exemplos de como a paternidade pode cair bem, dependendo da ocasião, estão por aí, basta só abrir os olhos. Não paga pensão? Basta uma foto marota com a cria no Instagram para provar que você é um “paizão e tanto”, só não tem dinheiro para ajudar nas despesas, ué. Não troca uma fralda, nunca deu banho ou lavou uma macacão de cocô na vida? Basta fazer um textão no Facebook contando como a paternidade te fez um novo homem que tá beleza, você só “não leva jeito” para as tarefas do dia a dia.

Juntei protetor solar, canga, toalha, boné, água, frutas e o baldinho e saí daquele trecho de praia, procurando melhores ares para respirar. Eu podia ter chutado o carro do cara, podia ter chamado a polícia, os bombeiros, triplicado o escândalo. Mas lembrei que a gente estava lá para se divertir, e não para se chatear, vamos sair daqui, filho. E assim procuramos um novo lugar ao sol e encontramos perto de uma família que logo abriu espaço para que a gente se instalasse. Existem pessoas legais, no mundo e na praia, e ao lado delas que eu quero ficar em 2018.

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