‘Minha mãe matou o meu pai com um martelo, mas eu quero que ela seja libertada’

Sally Challen e Richard Challen; ela matou-o a golpes de machado e foi condenada à prisão perpétua

Sally Challen e Richard Challen; ela matou-o a golpes de machado e foi condenada à prisão perpétua Arquivo pessoal

Oito anos atrás, em um dia de 2010, Sally Challen pretendia dizer suas últimas palavras ao filho David. “Você sabe que eu te amo, né?”, disse ela, enquanto ele saía do carro da mãe para rumar ao trabalho.

Na véspera, Sally havia matado seu marido, Richard Challen, pai de David, com golpes frenéticos de martelo. Mas, naquela manhã em que sua mãe o levou ao trabalho, David ainda não tinha a menor ideia de que essa tragédia havia acontecido.

O plano de Sally naquele dia era deixar o filho no trabalho e cometer suicídio, saltando do topo de um prédio de estacionamento. Quando ela viu o estacionamento fechado, dirigiu até uma praia de East Sussex, no sudeste da Inglaterra, para saltar de um precipício.

De lá, porém, Sally decidiu ligar para um primo, a quem admitiu ter matado o marido. Em seguida, ela repetiu a confissão a uma equipe de prevenção a suicídios e a um sacerdote, convocados para ajudá-la. Passadas duas horas, eles a convenceram a sair do precipício.

Sally foi presa e condenada em 2011 à prisão perpétua pela morte do marido.

Agora, porém, seus advogados utilizarão uma nova lei britânica, que reconhece a manipulação psicológica (ou “controle coercitivo”) como uma forma de abuso doméstico, para tentar libertar Sally, em uma audiência judicial prevista para fevereiro. E seu filho David saiu em apoio da mãe, defendendo sua liberdade e afirmando que ela havia sofrido anos de abuso por parte do pai.

Se a estratégia dos advogados for bem-sucedida, será histórica e pode abrir precedentes na Justiça do Reino Unido.

David Challen afirma que a mãe sofreu anos de abuso e manipulação psicológica durante os 30 anos de casamento com o pai

David Challen afirma que a mãe sofreu anos de abuso e manipulação psicológica durante os 30 anos de casamento com o pai BBC

Violência psicológica

Assim como a violência física em um relacionamento foi reconhecido pela Justiça britânica como um fator atenuante no caso de homicídios, os advogados de Sally alegam que o abuso psicológico que teria sido imposto a ela por Richard deve servir como defesa.

As circunstâncias do assassinato dão, segundo eles, uma dimensão do controle que Richard exercia sobre a mulher.

No próspero subúrbio de Claygate, região inglesa de Surrey, em uma manhã de sábado de agosto de 2010, Sally visitava a casa que até recentemente dividia com Richard, seu marido havia 31 anos.

Ele morava sozinho ali desde que Sally o deixara, em novembro do ano anterior, depois de descobrir que ele havia se relacionado com prostitutas.

David e seu irmão mais velho, James (que prefere evitar a atenção midiática), alegam que o pai havia imposto, ao longo de anos, “abuso financeiro, manipulação psicológica, controle sobre a liberdade de movimento dela, controle sobre todos os aspectos da sua mente”.

Depois que a mãe deixou o pai, os filhos pediram que ela mantivesse distância dele.

Mas, sem o conhecimento dos filhos, ela voltou a se encontrar com o marido, na esperança de uma reconciliação.

O que aconteceu na casa naquele dia de agosto de 2010, porém, foi o oposto disso.

Richard com os filhos, que hoje defendem a libertação da mãe da prisão

Richard com os filhos, que hoje defendem a libertação da mãe da prisão Arquivo pessoal

Sally havia ido à case de carro, e dentro do veículo havia uma bolsa com um martelo dentro.

Richard queria que ela assinasse um acordo pós-nupcial que tirava dela qualquer direito de posse sobre a casa da família, estimada em 1 milhão de libras, e impunha condições duras, ditando que ela “não poderia interrompê-lo e não falaria com outras pessoas quando o casal estivesse em restaurantes”.

Não havia comida na casa, então Richard pediu que Sally fosse ao mercado fazer compras.

Ao voltar de lá, Sally suspeitou que ele tivesse outro motivo parar querer sua saída de casa. Pegou o telefone dele e ligou para o número discado por último, e a ligação foi atendida por uma mulher, que ela identificou como uma amante do marido.

Na cozinha da família, Sally fritou ovos e bacon para Richard. Serviu o marido e, enquanto ele comia, ela tirou o martelo da bolsa e golpou-o 20 vezes na cabeça.

Envolveu o corpo em cortidas e cobertores e deixou por cima um bilhete que dizia: “Te amo, Sally”. E foi embora.

Sally escreveu também um bilhete suicida, mas decidiu adiar sua própria morte até que tivesse a chance de ver David pela última vez – aos 23 anos, o filho morava com ela na nova casa que ocupava.

‘Seu pai está morto’

No dia seguinte, conta David, quando sua mãe o deixou no trabalho e fez a declaração de amor, o jovem foi horas depois chamado na sala de seu chefe.

“Logo apareceu o meu primo, seguido de um policial uniformizado. Ele me segurou pelos ombros e disse: ‘seu pai está morto’.”

Passaram-se dez meses, e Sally foi a julgamento. David queixa-se de que ela foi retratada na Corte como alguém “vingativa e ciumenta”.

A Promotoria afirmou perante o júri que Sally monitorava as conversas telefônicas de Richard e contava até quantas pílulas de Viagra ele tinha.

No julgamento, Sally falou pouco. Mas há evidências em vídeo no qual ela admite ter matado o marido, além do depoimento da equipe de prevenção a suicídio que a atendeu. Eles dizem que a confissão dela foi a seguinte: “Eu matei ele com um martelo, golpeei várias vezes… Se eu não posso tê-lo, ninguém mais poderá.”

Sally fondenada à prisão perpétua, mas a aprovação, em 2015, de uma lei que reconhece a manipulação psicológica como abuso deu novo ímpeto a sua defesa.

Sally Challen pode ter seu destino mudado após a aprovação de uma lei que reconhece controle coercitivo como abuso doméstico

Sally Challen pode ter seu destino mudado após a aprovação de uma lei que reconhece controle coercitivo como abuso doméstico Arquivo pessoal

Em março de 2018, Sally ganhou o direito de apresentar um recurso contra sua condenação.

Sua advogada, Harriet Wistrich, da organização feminista Justice for Women, afirma que a nova lei pode ser usada como uma “nova evidência” no caso.

“Argumentamos, pela primeira vez, que o entendimento de abuso doméstico que virou lei em 2015 oferece uma nova forma de os atos de Sally serem vistos, o que pode dar sustentação (à tese de) defesa por provocação.”

Wistrich acredita que essa seja a primeira vez que a lei de controle coercitivo esteja sendo usada no recurso de um crime de homicídio: “Defendemos que, se essa nova evidência for aceita, a condenação por homicídio se torna frágil e, portanto, deve ser revogada”, argumenta.

O objetivo, prossegue a advogada, é tentar mudar a sentença de homicídio doloso para culposo (sem a intenção de matar) ou pedir um novo julgamento.

O fato de que os próprios filhos defendem a liberdade de Sally – e de que, até o momento, nenhum parente de Richard tenha se manifestado publicamente contra isso – é significativo, diz Wistrich. Mas a advogada também admite que o fato de Sally ter um martelo na bolsa naquele dia sugere premeditação – e pode fazer com que a condenação por homicídio culposo se mantenha.

David, por sua vez, argumenta que o tratamento que Richard dispensava à mãe se encaixa exatamente na definição de controle coercitivo.

“Era como se ela fosse um robô e ele apertasse o controle (para decidir) o que ela tinha que fazer”, diz ele.

Sally e Richard em seu casamento, em 1979; filho diz que ela vivia 'presa' ao marido

Sally e Richard em seu casamento, em 1979; filho diz que ela vivia ‘presa’ ao marido Arquivo pessoal

O filho conta que Richard era controlador desde quando conheceu Sally, quando ela tinha 15 anos e ele, 22.

O pai frequentemente “mantinha casos com outras mulheres e ia a bordéis”, prossegue o filho. E se fosse confrontado a respeito, dizia: “‘Sally, você está louca’. Era como um mantra dele.”

“Havia uma panela de pressão. (…) O mundo dela revolvia ao redor do dele, e ele sabia disso – sabia que ela estava presa”. “Meu pai e o modo como ele se comportava eram as únicas referências que ela tinha”, tem dito David em diversas entrevistas à imprensa britânica, em meio a sua campanha pela libertação da mãe.

David conta que a família era regida por regras rígidas, sobretudo Sally.

“Ele não gostava que a minha mãe tivesse qualquer independência em termos de amigos; apenas amigos que eles tivessem juntos. Era controle total.”

Insultos

Se ela fizesse algo que o desagradasse, Richard determinava que ela só poderia usar o carro para ir trabalhar – uma vez que o trabalho dela é que sustentava a família. Vizinhos dizem que Richard tratava a mulher como uma propriedade.

E Sally era insultada pelo marido por supostamente estar acima do peso. “Era algo que eu e meu irmão ouvíamos o tempo todo”, diz David. “(Falava) não só diante de nós, mas diante de amigos também.”

Durante o julgamento, Sally foi retratada como uma mulher que atacou Richard em um ataque de fúria, depois de descobrir que ele havia telefonado para uma namorada. Mas David acha que a mãe estava fora de si naquele momento.

“Ela pegou um martelo e matou meu pai. Reconheço que isso aconteceu, mas temos que reconhecer os efeitos do controle psicológico. Não sei por que ela levou aquele martelo. Nem ela entende por quê”, diz ele.

Ele afirma, ainda, que a mãe ainda diz amar o pai — algo que ele e o irmão “não conseguem entender”.

“Não sei como interpretar isso. Meu pai nem está mais vivo e ainda exerce controle sobre ela.”

Sua esperança é de que o recurso de Sally seja capaz de “reconhecer o abuso mental (a que ela foi submetida) e o que ela sofreu na vida”.

“A questão não é que ela era uma esposa ciumenta”, argumenta ele. “Ela foi manipulada psicologicamente toda a vida dela, presa por esse homem, o meu pai. Ela merece seu direito à liberdade. Merece que seu abuso seja reconhecido.”

David Challen com a mãe, na infância; 'ela merece que o abuso (a que foi submetida) seja reconhecido', diz ele

David Challen com a mãe, na infância; ‘ela merece que o abuso (a que foi submetida) seja reconhecido’, diz ele Arquivo pessoal

 

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