Novo conselheiro pode ser última chance de Trump na política externa

Robert C. O'Brien após a libertação do rapper A$AP Rocky

Robert C. O’Brien após a libertação do rapper A$AP Rocky EFE/ Erik Simander/30.07.2019

Escalada de tensão no Oriente Médio, suspensão das conversas com o Taleban no Afeganistão, crise na Venezuela e possível retomada de negociações com Kim Jong-un na Coreia do Norte: o cenário em que o advogado Robert C. O’Brien assume o cargo de conselheiro de segurança nacional dos Estados Unidos definitivamente não é dos mais tranquilos. 

De quebra, sua nomeação pode ser a última chance do presidente Donald Trump dizer que teve algum sucesso na  política externa durante seu mandato. 

“Os desafios, neste momento, são grandes. A política externa é um dos maiores problemas que o governo Trump vem enfrentando e os Estados Unidos estão perdendo sua capacidade de mediar e negociar em discussões internacionais”, aponta Sidney Ferreira Leite, especialista em Relações Internacionais e Pró-reitor do Centro Universitário Belas Artes de São Paulo.

“Robert O’Brien tem agora a responsabilidade de contribuir para que o país recupere sua liderança”, acrescenta o professor.

O’Brien, que até esta semana atuava como Enviado Presidencial Especial para Assuntos de Reféns do Departamento de Estado americano, foi anunciado por Trump nesta quarta-feira (18) como substituto de John Bolton — demitido na última terça-feira (10) após uma série de discordâncias em relação à política externa do governo.

Mediação e articulação

Ao nomear O’Brien, Trump parece ter levado em consideração as habilidades de mediação e articulação do advogado, que costuma atuar nos bastidores do governo e foi um dos responsáveis pela recente libertação rapper norte-americano A$AP Rocky — detido por uma briga em Estocolmo, na Suécia, no mês de julho.

“As críticas a John Bolton eram justamente de que ele atuava com certa intransigência e incapacidade de praticar uma diplomacia que gerasse acordos com outros países. Um dos exemplos é a questão inconclusa da Venezuela: os Estados Unidos jogaram pesado [reconhecendo Juan Guaidó como presidente interino em oposição a Nicolás Maduro] e pouco se avançou”, lembra Leite.

Pouco antes de entrar na Casa Branca, no ano passado, Bolton chegou também a defender a declaração de guerra contra Coreia do Norte e Irã.

O papel do conselheiro de segurança nacional

O cargo de conselheiro de segurança nacional não exige a confirmação do Senado americano e é um dos mais influentes do governo em termos de relações exteriores. “Ele atua como uma espécie de mediador entre vários órgãos que cuidam da política externa dos Estados Unidos”, explica o Pró-reitor do Centro Universitário Belas Artes.

O’Brien será o encarregado de comandar centenas de especialistas do Pentágono, do Departamento de Estado e das agências de inteligência americanas com o objetivo de determinar quais ações se alinham aos interesses do país.

“É um papel diferente daquele do Mike Pompeo — secretário de Estado —, cuja atribuição é colocar em prática as ideias, os conceitos e a visão do governo sobre a política externa. Pompeo desempenha trabalhos de ação e realização dos projetos da administração Trump”, pondera Leite.

Atuação em período pré-eleitoral

Robert O’Brien se torna o quarto conselheiro de segurança nacional do mandato de Trump, depois da saída dos generais do Exército Michael Flynn e H.R. McMaster, e de Bolton. Sua atuação, entretanto, pode ser bem mais decisiva, conforme aponta o professor. 

“Os Estados Unidos já estão em um período pré-eleitoral. No futuro, uma atuação bem-sucedida de O’Brien como conselheiro de segurança nacional seria uma demonstração de que o governo Trump foi capaz de estabilizar uma ordem internacional tensa.”

O presidente, por ora, parece confiante sobre a escolha: ele já declarou publicamente que O’Brien é o “melhor negociador de reféns da história dos Estados Unidos”. “Fará um ótimo trabalho!”, completou, em post no Twitter. 

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