O que esperar da economia? Economistas da Unicamp analisam futuro da região de Campinas


Humberto Miranda Nascimento e Francisco Luiz Lopreato opinam sobre o que vem por aí, também no cenário nacional no governo Bolsonaro. O que nós podemos esperar da economia na Região Metropolitana de Campinas (RMC) e no país em 2019? Dois economistas da Unicamp traçaram os possíveis cenários com o início do governo Jair Bolsonaro (PSL).
O presidente nomeou o economista Paulo Guedes para comandar o superministério da Economia, que reúne Fazenda, Planejamento e Indústria e Comércio. Antes mesmo de assumir, Guedes sinalizava que a reforma da Previdência, os cortes de gastos, o ajuste fiscal e as privatizações serão focos centrais da era Bolsonaro. Guedes é visto pelos colegas de profissão como um “discípulo” da Escola de Chicago, nos Estados Unidos, berço do pensamento liberal quando se fala em economia. Nos últimos governos no Brasil (Lula e Dilma), os investimentos em infraestrutura partiram do estado, com obras e políticas sociais. Agora, a tendência é que o setor privado assuma o papel protagonista, disseram os economistas ouvidos pelo G1. Os especialistas listam os prós e contras do que vem por aí. Empresas em alta na RMC
Coordenador do Centro de Estudos de Desenvolvimento Econômico (CEDE), o economista Humberto Miranda Nascimento, disse acreditar que na RMC , as empresas de serviços avançados – Aeroporto Internacional de Viracopos, empresas de fibra ótica, de transporte de mercadorias- terão crescimento a partir de 2019.
Este crescimento influenciará positivamente para profissionais com capacitação adequada para trabalhar nestas grandes empresas, muitas delas multinacionais.
O diretor do CEDE, Humberto Miranda do Nascimento Antonio Scarpineti/Divulgação Unicamp
Entretanto, muitos destes profissionais podem migrar para o exterior, caso os salários não acompanhem os valores praticados lá fora, segundo o especialista.
Se o crescimento pode ser positivo para trabalhadores com maior grau de instrução, por outro lado, trabalhadores menos qualificados podem permanecer fora do mercado formal, engrossando a informalidade. Mas, o economista do CEDE alerta para outro reflexo possível na Região Metropolitana em 2019. “Estas empresas [com crescimento esperado] se concentram entre seis e dez cidades da região”, disse o economista.
Com essa centralização, mais pessoas podem se deslocar para esses municípios, com mais investimentos e vagas, ampliando os problemas de infraestrutura, como no caso dos transportes, por exemplo.
Essas cidades concentram a maioria dos investimentos pelo fato de se beneficiarem de melhor infraestrutura, como proximidade de aeroportos e rodovias como Anhanguera (SP-330), Bandeirantes (SP-348) e Dom Pedro I (Sp-065). São por elas que escoam rapidamente os produtos.
Na questão da balança comercial da RMC, o coordenador do CEDE ressalta para a queda de braço das empresas nas questões das exportações e importações, principalmente no tocante ao fator “China”.
“A China está fazendo investimentos diretos na região ”, disse o professor.
O que pode prejudicar as empresas regionais, é que essas empresas, adquiridas pelos chineses, podem optar por importar insumos do país asiático, ao invés das indústrias daqui.
“Eles [Chineses] têm um paque siderúrgico gigante e com capacidade ociosa, e nossa indústria pode perder densidade”, afirma o professor Humberto Miranda Nascimento.
Para o economista, o novo governo terá que saber negociar com a China, para não perder no fluxo comercial, além de fazer o mesmo com os Estados Unidos, que adotou política de privilegiar indústrias americanas com objetivo de incrementar o emprego e renda naquele país. Regresso nas questões sociais
O coordenador do CEDE disse acreditar que a possível virada na política econômica para o lado mais liberal pode reduzir investimentos nas questões sociais, influenciando no aumento da violência.
“Podemos regredir para os anos 1980, mas o governo terá um ano para teste”, afirma o economista da Unicamp.
E o país?
Como pode ficar a economia brasileira de uma forma geral? O G1 ouviu o economista da Unicamp Francisco Luiz Cazeiro Lopreato para esta resposta. Ele disse estar pessimista com o cenário projetado da economia nacional a partir de 2019. “Olha, minha previsão não é boa”, opinou logo no início da entrevista ao G1.
Para ele, o Brasil tem excelentes condições para retomar o rumo do crescimento, mas fatores podem manter a economia brasileira travada. Ele explica:
“A economia está em condições de voltar a crescer, porque tem uma capacidade ociosa imensa, tem um nível de desemprego muito grande, e a situação fiscal, longe de ser a ideal, em si, não se coloca como entrave instransponível”, alega o economista.
O economista e professor da Unicamp Francisco Lopreato
Antoninho Perri/Divulgação Unicamp
Lopreato também recorda que a inflação está controlada e a taxa de juros se mantém relativamente baixa. Porém, para o especialista, a política econômica anunciada pelo ministro da economia, Paulo Guedes, pode ir de encontro com as situações favoráveis listadas acima.
“Paulo Guedes é um superliberal, coisa que no Brasil não ocorreu. Nem a ditadura [governos militares de 1964 a 1985] brasileira fez a política do Paulo Guedes. A visão dele se encaixa com a ditadura do Pinochet no Chile [Augusto Pinochet 1973-1990]”, completa o economista.
Na visão do economista, no período militar, os governos brasileiros mantiveram o estado como motor da economia com obras no setor de infraestrutura, entre outros investimentos.
Já no período em que o general Pinochet governou o Chile, o militar repassou o protagonismo para o setor privado. “Dentro desta política ultraliberal, o estado não tem papel nenhum, então, não vai investir”, explica o economista. Paulo Guedes, o novo ministro da Economia
Adriano Machado/Reuters
Para Lopreato, se o estado não investe em obras grandes e programas sociais, as empresas não se sentem seguras para investir.
A possível política de privatizações, corte de gastos e ajuste fiscal do novo governo podem significar também em queda nos investimentos.
As incertezas políticas (operação lava-jato atingindo empresas e políticos) e o distanciamento do governo Bolsonaro com práticas antigas de negociar ministérios com partidos também serão motivos de conflitos entre o Executivo e o Legislativo, com reflexos na economia.
Para que o país volte a crescer, o economista da Unicamp defende investimentos do estado em infraestrutura, fortalecimento da construção civil- que puxa as indústrias de aço, ferro e cimento-, mais crédito para o consumo das famílias, e o não “esvaziamento” do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), além de políticas sociais.
“Eu estou bastante pessimista. Obviamente, faço análise como economista. Eu não torço contra”, finaliza o economista.
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