Pacientes de câncer são as ‘outras’ vítimas da guerra do Iêmen

Desde 2015, quando começou, a guerra no Iêmen já deixou mais de 10 mil mortos, por causa dos combates entre grupos houthis e forças do governo, apoiadas por coligação liderada pela Arábia Saudita. Mas a falta de infraestrutura básica e a escassez de produtos trazem um sofrimento a mais para uma população que já vive um drama: os pacientes com câncer

Eles lutam pelo acesso ao tratamento, em um sistema de saúde empobrecido como o país, com falta de medicamentos. Na costa ocidental do país, Mohammed al-Hosami, de al Mahwit, só consegue pagar o tratamento de sua mãe, na cidade vizinha de Hodeidah, porque recebe apoio do povo de sua aldeia

“Não há trabalho ou salário, então não podemos arcar com os custos de transporte, e a aldeia me ajudou com os pagamentos para tratamento e para levá-la até lá”, disse ele enquanto um médico cuidava de sua mãe, que tinha um inchaço intenso em um dos braços

Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), cerca de 35.000 pessoas têm câncer no Iêmen, com cerca de 11.000 casos diagnosticados a cada ano. A fome causada pela guerra ameaça milhões de iemenitas. A cólera também. Os pacientes com câncer, além dessas duas ameaças, lutam por tratamento em uma economia em colapso 

A filha de Khaled Ismael, Radhiya, 17 anos, teve seu braço esquerdo amputado devido ao câncer. “Eu gastei todos os nossos objetos de valor e tive que pedir muito dinheiro para cobrir as despesas do tratamento da minha filha. No final, não conseguimos pagar um bom tratamento”, disse Ismael. “Devido à nossa incapacidade de viajar para o exterior, minha filha não recebeu tratamento suficiente e seu braço teve que ser amputado”.

“É muito difícil encontrar remédios e, se você encontrá-los no mercado, eles são muito caros e os cidadãos não podem comprá-los”, disse Mohammed Al-Emad, acompanhando um parente em tratamento na capital Sanaa. Na foto, uma mulher segura um equipamento para o filho que tem câncer no Centro Nacional de Oncologia, em Sanaa

A guerra entre uma coalizão militar liderada pela Arábia Saudita e o os houthis, alinhados com o Irã, além dos milhares de mortos, deixou mais mais de 10 milhões de iemenitas sem acesso a alimentos, segundo a Oxfam. Cerca de 850 mil crianças estão à beira da fome. Doenças como cólera, malária e difteria proliferam 

Os houthis ainda controlam as áreas mais populosas do país, incluindo Sanaa. Por isso, temendo envio de armas, a Arábia Saudita impôs medidas rigorosas para o comércio marítimo, retardando o fluxo de suprimentos de ajuda desesperadamente necessários

O Centro Nacional de Oncologia em Sanaa admite cerca de 600 novos pacientes com câncer a cada mês. Mas recebeu apenas 1 milhão de dólares (cerca de R$ 4,05 milhões) em financiamento no ano passado de entidades estatais e grupos internacionais de ajuda, disse o chefe do centro, Ahmed al-Ashwal, à Reuters. Na foto, um menino que tem câncer caminha com um gotejamento intravenoso no Centro Nacional de Oncologia, em Sanaa

As poucas camas disponíveis no centro são reservadas para crianças. Outros pacientes recebem tratamento por via intravenosa, enquanto estão sentados em cadeiras reclináveis dilapidadas ou na área de espera. Na foto, uma menina com câncer encontra-se em uma cama no centro nacional da oncologia em Sanaa

A OMS disse que, antes do conflito, o centro recebia 15 milhões de dólares (R$ 60,8 milhões) por ano do Estado e que o orçamento era usado para comprar medicamentos de quimioterapia e medicamentos contra o câncer para centros de oncologia em todo o país

“Agora, o Centro Nacional de Oncologia está confiando totalmente no fundo fornecido por organizações internacionais, incluindo a OMS, e algumas organizações de caridade ou empresários, já que o fundo do governo foi interrompido por cerca de dois anos”, afirmou em comunicado da entidade enviado à Reuters

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O chefe do Centro Al-Amal para Tratamento do Câncer, Yasser Abdullah Noor, disse que o centro está lutando para cuidar de seus mais de 5.300 pacientes em Hodeidah e corre o risco de fechar sem o apoio do governo.
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