Pedreira mantém viva a arte de pintura a mão em porcelana


Artista conta que houve aumento na procura por peças que unam sofisticação e história; um jogo de jantar personalizado pode chegar a R$ 6 mil. Trabalho de pintura a mão em porcelanas é uma arte que completa 105 anos em Pedreira (SP)
Andreia Pereira
A procura de consumidores por porcelanas que unam sofisticação e história mantém viva em Pedreira (SP) uma arte secular: a de peças pintadas a mão e filetadas a ouro. Um trabalho de criatividade e técnica, que fez da cidade do Circuito das Água Paulista, ao longo de décadas, um “berço” de artistas. Símbolo secular de nobreza, exibir as iniciais, desenhos diferenciados ou brasões de família em finas porcelanas é uma arte que chegou em Pedreira há 105 anos. Um trabalho que atualmente atente uma clientela, em sua maioria, das classes A e B. Um jogo de jantar personalizado, por exemplo, pode chegar a quase R$ 6 mil.
“São pessoas que gostam de peças ricas em detalhes, que tenham desenhos e cores únicos, iniciais do nome em xícaras e pratos e até brasões da família”, diz Roberta Ferraresso, no ramo há 30 anos. Roberta Ferraresso mantém viva a tradição da pintura a mão em porcelanas em Pedreira (SP)
Andreia Pereira Design de interiores e administradora, Roberta trabalha para manter viva a tradição que herdou da mãe, Ivani. “Comecei ainda menina, vendo a minha mãe fazer”, comenta. Como o comércio registrou ao longo dos anos queda nas vendas da porcelana e precisou diversificar, a arte da pintura a mão ficou concentrada a poucos artistas. Porcelana de Pedeira, um dos principais produtos do município
Roberta Ferraresso/Arquivo pessoal
“Infelizmente, hoje dá para contar nos dedos o número de pessoas que trabalham com essa arte. Antigamente havia muita gente talentosa em Pedreira, mas novas gerações não surgiram. Uma pena”, lamenta Roberta.
Artista recebe trabalhos de diversas partes do Brasil
Andreia Pereira ‘Nostalgia’
Roberta diz que a demanda cresceu em 2018 e aponta a nostalgia como uma das principais razões. “Há aqueles que se lembram de uma fase da vida e querem eternizá-la em peças, lembrança da avó ou da mãe. Nós realizamos esses sonhos”. A clientela vem de diferentes partes do Brasil. “Há algum tempo uma senhora de Salvador, na Bahia, viu o trabalho na internet e enviou um antigo jogo de jantar para ser personalizado. Outra também pediu que realizássemos o sonho de sua vida ”, ressalta. Artista conta que nostalgia move pedidos de personalização em porcelanas
Andreia Pereira
A artista lembra que há clientes que buscam algo diferente e que simbolize sua personalidade ou da pessoa que quer presentear. Roberta que já fez trabalho para ex-jogadora de basquete Hortência e até para um ministro. “As pessoas buscam peças personalizadas, ostentação. Recebemos um telefonema do buffet que faria o aniversário do filho do Neymar. O menino foi para Rússia acompanhar o pai na Copa do Mundo e o negócio não evoluiu”, conta. Peça de porcelana pintada a mão
Andreia Pereira ‘Capital da Porcelana’
Embora ostente o título de “Capital da Porcelana”, o produto deixou, há tempos, de ser o único propulsor da economia do município. É o comércio diversificado que faz Pedreira receber, em média, 80 mil turistas ao mês, de acordo com a Associação Comercial e Empresarial e a Câmara de Dirigentes Lojistas da cidade.
Crises econômicas enfrentadas pelo País, em especial nos anos 1990, e, a “invasão chinesa ” foram um duro golpe no mercado nacional da porcelana, que se tornou cara demais.
Por outro lado, o revés abriu novos caminhos para nichos comerciais até então poucos explorados. Muitos empresários migraram, enquanto que outros se adaptaram a nova realidade e, além da porcelana, incrementaram seus comércios com produtos de alumínio, cerâmica, artesanato, decoração, gesso, MDF, plástico, resina, vidro, entre outros. Rua principal do comércio de Pedreira (SP)
Karen Ísis
Para o presidente da Sindlouça-SP (Sindicato da Indústria da Cerâmica de Louça de Pó de Pedra, da Porcelana e da Louça de Barro), Angelo Carmelo Consolo, a procura pela porcelana tem crescido. “A razão principal é que conseguimos que o valor do produto nacional fosse equiparado ao do mercado internacional, especialmente aos da China e Tailândia”, comenta. Comércio
Pedreira já teve grandes empresas de porcelana, mas não perdeu a fama. A rua principal é repleta de lojas que oferecem todo tipo de produto e material. Um shopping está em fase de construção na cidade e promete incrementar ainda mais o comércio.
“É uma parada obrigatória para quem vem ao Circuito das Águas. Festas tradicionais como a Expoflora, em Holambra, a Festa do Peão de Jaguariúna, e mesmo os festivais de Serra Negra, Amparo e Águas de Lindoia, trazem público a Pedreira. São muitas as excursões”, explica Roberta.
Museu
Pedreira conta com o Museu da Porcelana que guarda peças históricas da cidade desde a chegada das primeiras fábricas. O número de turistas cresce a cada ano: 16.541 (2015); 17.037 (2016) e 17.142 (2017). Visitantes de outros estados e países que deixam seus nomes no livro logo na entrada. O museu funciona todos os dias e recebe inúmeras exposições, de acordo com seu curador Adilson Spagiari.
Museu Histórico e da Porcelana de Pedreira (SP)
Karen Ísis
A cidade ainda tem fábricas em que a porcelana fez história. Uma delas, fundada em 12 de julho de 1956, fabrica de xícaras, canecas, bibelôs e os mais variados produtos em porcelana. O proprietário Toninho Ganzarolli conta que tem como hobby entregar canecas para famosos, políticos e artistas. Diz que ainda só não conseguiu para os papas. “Mas estive bem perto”, diz. Toninho Ganzarolli está no ramo da porcelana em Pedreira (SP) desde 1959
Andreia Pereira
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