Pesquisador dedicou a vida às tartarugas marinhas


Professor norte-americano Archie Carr deixou legado que é seguido até hoje; seu aniversário virou o Dia Internacional da espécie Estudos desenvolvidos pelo mundo contribuem para a conservação: homem e animal como aliados Aguinaldo Matos/Arquivo TG
Lá no início dos anos 40, sem qualquer ajuda de tecnologias de ponta, ele fez descobertas e criou métodos de trabalho que são seguidos até hoje. O herpetólogo, ecologista e conservacionista norte-americano Archie Fairly Carr Jr., falecido em 1987, aos 77 anos, é tão importante para as pesquisas sobre as tartarugas marinhas no planeta que a data do seu aniversário – 16 de junho – virou o Dia Internacional desse animal. Só isso já dá uma ideia de seu papel para a proteção dessa espécie e do legado que deixou.
“O professor Archie Carr foi, no passado, exatamente o que todos os pesquisadores querem ser hoje”, José Henrique Becker, biólogo e coordenador técnico do Projeto Tamar em Ubatuba
Conforme lembra o material contido no site do Projeto Tamar, um trabalho brasileiro exemplar que pode ser considerado um “filhote” do pesquisador, Carr foi doutor em zoologia pela Universidade da Flórida de 1937 até o fim da vida. Ele descreveu inúmeras espécies e subespécies desconhecidas e, entre 1945 e 1949, ensinou biologia em Honduras, o que deu a ele a oportunidade de estudar a vida selvagem da América Central e de encontrar as tartarugas marinhas, que se tornaram o trabalho de sua vida. Talvez sua maior descoberta tenha sido o fato de que a praia chamada Tortuguero, na Costa Rica, é o mais importante local de desova da tartaruga verde (Chelonia mydas) de todo o hemisfério ocidental.
Tartaruga-de-pente em seu habitat: pesquisador norte-americano desvendou muitos dos mistérios desse animal
Arquivo TG
Ao proteger uma praia, Carr demonstrou como é possível salvar da extinção uma população inteira. Através da Caribbean Conservation Corporation – criado em 1959 e atual Sea Turtle Conservancy, o mais antigo grupo de pesquisa e conservação de tartarugas marinhas do mundo – o norte-americano foi reconhecido como maior autoridade em tartarugas marinhas. Estudos na África oriental, Papua Nova Guiné, Austrália e inúmeras outras localidades espalharam a sua mensagem de cooperação para a conservação desses animais ameaçados de extinção.
“O Projeto Tamar tirou grande parte de sua inspiração na vida e obra deste pesquisador criativo, inovador e visionário”, Neca Marcovaldi, oceanógrafa e coordenadora de pesquisa e conservação do Projeto Tamar Mistério
Os textos que tratam de sua vida contam ainda que Carr conseguiu, com seu jeito amigável e nada ameaçador, interagir com pescadores locais e com caçadores de tartarugas marinhas, além de construir alianças significativas com governos e apoiadores para a conservação desses animais pré-históricos. Seus estudos e escritos permanecem atuais até hoje. “A base de todo o nosso conhecimento foi escrita por ele. O seu exemplo inspirou outros pesquisadores pelo planeta, até aqui mesmo no Brasil seu legado é seguido e tido como exemplo de método de trabalho. Foi Carr quem começou a desvendar essa mistério que é a vida das tartarugas marinhas e isso acabou atraindo o interesse de muitos outros pesquisadores”, afirma José Henrique Becker, biólogo e coordenador técnico do Projeto Tamar em Ubatuba (SP). “O Brasil marca presença hoje no cenário internacional em relação ao estudo e preservação das tartarugas marinhas e podemos dizer que isso também é um reflexo da dedicação desse pesquisador”, acrescenta.
Os integrantes do Projeto Tamar destacam ainda que as tartarugas marinhas enfrentam muitas ameaças atualmente. Populações humanas em contínuo crescimento, especialmente em áreas costeiras, degradação de habitats pela pesca e poluição, perda de áreas de desova pelo desenvolvimento costeiro e aumento do nível do mar, além da captura incidental em pescarias. Grandes ameaças que pedem um trabalho incessante de proteção, algo que Carr deixou marcado na vida dos milhares de profissionais que ele inspirou. Sua missão está mais viva do que nunca.
O LEGADO DO MESTRE
Navegação
A navegação das tartarugas marinhas sempre intrigou Archie Carr. Como as tartarugas se orientam para chegar em determinadas praias para se reproduzirem? Ele denominou isto de “o caminho para a ilha meta”, em referência à migração das tartarugas-verdes (Chelonia mydas) rumo à ilha Ascenção, que fica no meio do Oceano Atlântico. Atualmente, centenas de transmissores via satélite têm sido colocados em tartarugas marinhas, o que tem permitido saber informações surpreendentes sobre a capacidade de navegação desses animais, mas foi Carr que, na década de 60, com seu espírito criativo, quem primeiro tentou realizar um experimento para seguir estes animais pelos oceanos utilizando balões metereológicos e radiotransmissores amarrados aos cascos.
Volta ao local de nascimento
O uso de sequências de DNA como marcadores genéticos tem demonstrado o que Archie Carr não tinha conseguido provar naquela época, que as tartarugas voltam para a mesma praia onde nasceram (chamado de filopatría natal).
Mistério do “Ano Perdido”
Uma das grandes buscas de Archie Carr foi identificar para onde vão as tartaruguinhas depois que nascem. O “mistério do ano perdido” até hoje é pesquisado. O uso de DNA mitocondrial tem permitido confirmar com as tartarugas-cabeçudas (Caretta caretta) uma das hipóteses de Archie Carr, que entendia que a maioria das tartarugas juvenis presentes nas águas dos Açores era proveniente da costa do Sudeste dos Estados Unidos. Outra descoberta foi que estas tartarugas passavam de 7 a 10 anos ao redor dos Açores e portanto o “ano perdido” na realidade é de fato uma década.
Populações
Archie desenvolveu dois métodos consagrados para estudos das populações de tartarugas marinhas que permanecem até hoje. Através de marcas metálicas colocadas nas nadadeiras sabe-se para onde elas vão, o que fazem e quantas são, e com a contagem de rastros de tartarugas nas praias de desova, os pesquisadores registram e protegem os ninhos. Os dois métodos ainda são utilizados para monitorar a abundância das populações em muitas áreas de reprodução desses animais no mundo.
Praias
As tartarugas marinhas passam somente 1 % da sua vida nas praias, por isso Archie Carr ressaltava a necessidade de se estudar esses animais nas áreas de alimentação – embora seja muito trabalhoso – para que se possa conhecer quais praias de desova são as fontes das agregações de tartarugas.
Fonte: Projeto Tamar

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