Projeto busca reinserir muriqui fêmea que se perdeu do grupo


Bonita pertence a uma espécie primata criticamente ameaçada. Bonita está vivendo, no momento, em uma floresta menor que um campo de futebol
Daniel Ferraz / Muriquis do Caparaó
Independente da boa recepção e dos bons alimentos que possam te oferecer em uma casa diferente, nenhum lugar será como o seu lar. É essa a grande perda de Bonita, uma jovem muriqui-do-norte (Brachyteles hypoxanthus) que deixou seu grupo natal há oito meses e não conseguiu encontrar uma nova casa no Alto do Caparaó, em Minas Gerais. As fêmeas de muriqui-do-norte, geralmente em torno dos seis anos, atingem a sua maturidade sexual. Evitando criar relações com os próprios parentes e, assim, colocar em risco a sobrevivência da população, elas saem de seus grupos natais e percorrem a mata em busca de outro ambiente social.
As fêmeas de muriqui buscam outros grupos sociais Daniel Ferraz / Muriquis do Caparaó
Atualmente, sabe-se que restam somente 900 indivíduos de muriquis-do-norte no mundo. Além da pequena população, esses primatas estão distribuídos de forma fragmentada em espaços remanescentes de Mata Atlântica. As ações de devastação do homem e a caça do macaco ameaçam cada dia mais essa espécie. A bióloga e coordenadora do Projeto Muriquis do Caparaó, Aryanne Clyvia, explica que com o desmatamento, por exemplo, as fêmeas não conseguem chegar a outros grupos para se reproduzir. “É como se elas ficassem perdidas no meio do caminho. Não tendo para onde ir, elas ficam abandonadas à própria sorte”, explica ela. A solidão é prejudicial aos muriquis, primatas muito sociáveis
Daniel Ferraz / Muriquis do Caparaó
Foi em consequência dessa situação que Bonita foi descoberta sozinha por analistas ambientais do Parque Nacional do Caparaó em maio de 2018. A muriqui foi resgatada e está vivendo hoje sob os cuidados da equipe, na esperança de poder ser reinserida na floresta. Bonita, assim como todas as fêmeas quando estão em busca de novos grupos, representam uma esperança para o futuro de uma espécie tão reduzida e ameaçada. O isolamento é prejudicial à saúde até da própria fêmea. Os muriquis-do-norte são extremamente sociais e até têm no abraço um gesto típico da espécie. Por conta disso, a campanha que visa arrecadar dinheiro para que Bonita possa a voltar para as matas e conhecer um novo grupo carrega o nome de “Abrace a Muriqui Bonita”. A iniciativa prevê a soltura dela no entorno de uma população selecionada. Além disso, um monitoramento deve ser feito através de um rádio colar. Assim, os pesquisadores poderão identificar se ela foi aceita naquele local e se houve integração ao grupo.
Bonita vive sob os cuidados do Projeto no Alto do Caparaó, MG
Daniel Ferraz / Muriquis do Caparaó
Queremos que a Bonita tenha uma nova chance de escrever sua história. Ela é uma esperança para a conservação de toda a espécie
Muriqui-do-norte também é distinguido pela coloração
Arquivo TG
Os muriquis-do-norte
Conhecido como o maior macaco das Américas, os muriquis possuem um nome com origem no tupi que significa “povo manso da floresta”. O comportamento não agressivo pode explicar como, apesar do tamanho, eles se encontram entre os 25 primatas mais ameaçados do Planeta. Há uma diferenciação entre as espécies do Norte e do sul que leva em conta a localização dos indivíduos. Os do Norte se localizam entre o Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo, enquanto os do Sul se concentram entre São Paulo e Rio de Janeiro apenas. Além do nome, os muriquis do norte e sul também se diferenciam por outros detalhes da coloração. Na sociedade dos muriquis, os machos não costumam mover-se entre outras populações. Assim, a responsabilidade de expandir a espécie é conferida às fêmeas, que migram para outros grupos. *Supervisionado por Lizzy Martins

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