Projeto monitora mais de 60 ninhos de uma das predadoras mais vorazes do planeta

Com foco nas harpias, Projeto gavião-real supera os 20 anos de cuidado com as aves de rapina. Na mitologia grega as harpias eram criaturas representadas como formosas e sedutoras mulheres com longas unhas. Realmente fascinantes e envolventes, esses animais, também conhecidos como gaviões-reais, são símbolo do imaginário popular e ainda encantam os observadores. Agora imagine encontrar um ninho desses gigantes predadores do mundo. As dificuldades não se dão só pelo fato de que elas estão sempre à espreita das presas e atentas com a proteção dos filhotes, mas também por aves de rapina arquitetarem sua morada no alto de árvores gigantes, na maior parte das vezes em regiões pouco acessíveis. O Projeto gavião-real foi criado em 1997 depois de que um marco tenha despertado o interesse e possibilitado o conhecimento sobre essa ave sedutora: a descoberta do primeiro ninho na Amazônia. Com ações no monitoramento de ninhos, proteção das aves, educação ambiental nos sítios de reprodução da harpia, pesquisas genéticas e ecológicas, o projeto evoluiu.
Hoje, com mais de 20 anos de existência, conta com o apoio de parceiros, voluntários e estudantes para o monitoramento dos mais de 60 ninhos no Brasil. Durante esse período transcorrido, o Projeto se expandiu até mesmo territorialmente e começou a abranger outros biomas e estados. É o que conta o pesquisador Dr. Aureo Banhos dos Santos, que coordena o núcleo da Mata Atlântica a partir da Universidade Federal do Espírito Santo. “Hoje a gente tem tecnologia para extrair o DNA das penas das aves e com isso investigamos o comportamento, o parentesco e determinamos o sexo”, descreve o pesquisador. A instalação de câmeras de monitoramento também foi uma evolução na captação de comportamento. Como ficam ligadas 24 horas por dia, em pontos diferentes do ninho, conseguem até saber como a vida da harpia está afetando outros ecossistemas. Esse tipo de tecnologia facilitou o trabalho do guia Jaílson Souza, que há 13 anos participa do projeto. “Recolhemos dados a partir do que foi capturado e podemos anotar os comportamentos diferentes, as presas, as aves copulando… E essa é uma mudança grande comparado com o que era feito antigamente”, comenta.
O guia iniciou seu trabalho, na Bahia, quando foi escolhido para fazer um monitoramento de uma harpia que estava solta. Em seguida, começou a desempenhar ações como vigia ambiental e na linha de reabilitação dos animais. “Só a gente sabe a emoção que é encontrar e estar perto do ninho. O projeto mudou a minha vida, hoje, porque me deu muito conhecimento nessa área”, conta ele. Explorando uma área correspondente a sete estados, os pesquisadores do Projeto desenvolvem atividades que incentivam a educação ambiental e tem favorecido a sensibilização das comunidades ribeirinhas quanto à importância do gavião-real e a manutenção da floresta do entorno do ninho.
Aureo conta que já observou esse tipo de ação modificando comunidades quando a população auxilia os pesquisadores com a observação diária dos ninhos e a descrição de comportamentos. Em uma comunidade de Parintins (AM), os moradores foram além e definiram, para uma determinada época do ano, a realização da festa do gavião-real. A observação dessa espécie já gerou frutos de outras naturezas para o projeto. No mapeamento de ninhos na Amazônia, os pesquisadores identificaram que aquele “lar” não se tratava do gavião-real, mas de uiraçus-falsos e gaviões-de-penacho. Por conta disso, o Programa de Conservação adotou estas outras grandes águias de grande porte do Brasil.
“É um projeto que a gente consegue enxergar o que ele tem feito e essa rede de contatos que criou para a conservação. A gente tem, a partir desse Projeto, um instrumento de mobilidade social para pessoas que querem trabalhar com o meio ambiente”, descreve o pesquisador.

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