RODÍZIO DE VEÍCULOS: TRAGÉDIA ANUNCIADA

imagem: Movimentação na Estação da Luz, em SP, na manhã de segunda-feira, 11 de maio (Fabio Vieira / FOTORUA/Estadão Conteúdo)

 

Uma das coisas que todo gestor público deve ter em mente é não se esquecer da realidade dos fatos, de como as pessoas se comportam. 

Quando isso passa desapercebido, a chance de falhas cresce exponencialmente, sobretudo quando ações governamentais atingem massas consideráveis de pessoas.

Este, ao que parece, é o caso do rodízio de veículos implantado na Capital/SP e em Campinas.

Uma experiência já questionável em São Paulo, pois aumentou sobremaneira os riscos do cidadão que se utiliza normalmente de transporte público, acrescendo a esse contingente aqueles que tinham alguma blindagem, mínima que fosse, para se proteger do Covid-19.

Importante destacar que não há dado algum que comprove a eficácia desse rodízio, mas, ao contrário, as inúmeras reportagens, realizadas pelos mais variados veículos de comunicação, têm mostrado que a concentração de pessoas aumentou, o que, a grosso modo, mina as tentativas de elevar a taxa de isolamento social das pessoas.

Se na Capital/SP, onde há um sistema de transporte público muito melhor que o de Campinas/SP, a situação está caótica, com ônibus lotados e terminais do Metrô entupidos de tanta gente em horários de pico, o que dizer da “capital do interior”, como sempre cita o prudente e sensato jornalista Helton Pimenta, que dispõe de um sistema mais modesto de transporte público?

Será que apenas os mais pobres serão penalizados, pois aqueles que possuem maior poder aquisitivo geralmente têm dois ou mais carros, e poderão burlar facilmente o rodízio, deixando para os menos favorecidos o sacrifício? Acredita-se que em Campinas/SP será muito mais fácil escapar do rodízio por essa razão.

Além do mais, esse verdadeiro caça-níquel em que se converteu o rodízio de veículos, já havia sido cogitada ao menos em São Paulo, na gestão de Fernando Haddad, pelo então secretário de transportes, Jilmar Tatto. 

Conforme matéria do jornal Folha de São Paulo, datada de 26/03/2015, a gestão Haddad, cogitou ampliar a área de abrangência do rodízio de veículos na Capital, como também o seu horário de vigência. Porém, estudos da CET, responsável pelo gerenciamento do tráfego na cidade, atestou que as duas medidas seriam inócuas, pois as pessoas mudariam seus horários de deslocamento ou comprariam outro carro, o que geraria uma “mexicanização” na cidade, expressão utilizada pelo então prefeito Haddad, à época, para caracterizar o que aconteceu na Cidade do México, onde os cidadãos compraram mais um veículo e a frota da cidade aumentou sensivelmente.

A título de informação, em um dia do novo rodízio na Capital/SP, aproximadamente mais duzentas e cinquenta mil pessoas foram acrescidas ao transporte público. Risco certo.

Em Campinas/SP essa tentativa de restrição da circulação será inócua em relação à parcela mais abastada da sociedade, ocasionando apenas o aumento do uso de aplicativos de transporte ou a utilização de dois veículos por residência, em caso positivo. Já para o pobre ou remediado, será necessário deixar o conforto e a proteção de seu veículo para se aventurar no transporte público ocasionando o aumento do número de usuários, sobretudo se a liberação de mais atividades econômicas ocorrer.

É certo que todos buscam soluções para combater a pandemia, ao mesmo tempo em que a economia deve ser preservada, o que não é fácil e não tem acontecido. Porém, a adoção de medidas como a criação do rodízio é um tiro no pé, e faz ressurgir a idéia de “sanha tributária” dos municípios, que encontraram no trânsito uma forma de equilibrar a receita, em que pese isso penalize o cidadão.

Campinas têm lastro de leitos para internação, índices relativamente controlados e pode aguardar um pouco para ver os resultados da experiência paulistana. Não deveria adotar, com tamanha pressa, medida tremendamente impopular e sem efetividade comprovada quanto ao isolamento social e níveis de contaminação, pelo menos enquanto um número maior de atividades econômicas não for liberada na cidade.

Aliás, a implantação desse rodízio seria melhor justificada concomitantemente à liberação de mais atividades econômicas, e à distribuição maciça de equipamentos de proteção individual – EPI´s, máscaras, inclusive luvas, para passageiros do sistema de ônibus da cidade. Aí sim, teríamos alguma chance de trabalhar em duas frentes: aquecer a economia e, mantidas as regras diferenciadas de convívio social, dar a segurança mínima ao cidadão que precisa trabalhar, com reduzida propagação do vírus e impacto menor no sistema público de saúde.

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Author: José Vieira

Jornalista, Diretor da Associação Paulista de Imprensa - API, bacharel em Direito(aprovado na OAB), servidor público, pós graduado em Direito da Comunicação Digital, MBA em Gestão Pública, professor do Centro de Estudos e Ensino em Segurança Pública e Direitos Humanos - CESDH

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