NAU SEM RUMO

Em mais um episódio dantesco, o governo federal se despede do médico Nelson Teich, agora ex-ministro da Saúde.

Não era novidade para ninguém que o ministro observou o cenário e decidiu não colocar sua biografia em risco por conta de uma diretriz totalmente equivocada que lhe foi imposta pelo presidente da república.

É incompreensível como, a cada dia, o governo mostra-se desprovido de um plano de governo para setores importantes do país, como, por exemplo, a Saúde.

As mesmas deficiências de gestões anteriores perduram, agravadas pela imensa dificuldade em estabelecer uma gestão predominantemente técnica do setor, sem interferências políticas superlativas.

Um governo que se permite preencher com várias contradições e polêmicas desnecessárias está jogando o país no descrédito internacional, e fomentando divisões internas nítidas, em prejuízo de uma imprescindível unidade nacional no que tange aos esforços para deter a escalada dessa pandemia.

Posturas consideradas arrogantes e vaidosas têm minado boa parte das chances de sucesso da gestão

Sempre é bom lembrar que o verdadeiro espírito patriótico não tem bandeiras político-partidárias, cor, etnia, ideologia, ou tampouco se submete a egos. Ele simplesmente une um povo em torno da utopia do progresso, de uma sociedade mais justa, bem nutrida e estruturada, que permita o crescimento pessoal sem barreiras, ao mesmo tempo em que consagra o coletivo como força maior para o desenvolvimento e a estabilidade em todos os sentidos.

Daí a preocupação de observadores mais atentos com as possíveis consequências dessa desenfreada sequência de erros e batalhas de egos que tem norteado o governo federal no Brasil.

O país acreditou em uma plataforma política na última campanha eleitoral, e até agora não viu surgir dela os projetos necessários para a melhoria do país.

A Saúde é o retrato disso. Depois de duas demissões na pasta em curtíssimo tempo, algo inédito no mundo, em meio à pandemia, como conseguir que algum técnico de peso e responsabilidade assuma o ministério?

Como alguém que honra a sua formação e biografia poderá se submeter à vontade desprovida de conhecimento científico de alguém que diz valorizar o profissional gabaritado mas que, no frigir dos ovos, exige que a sua vontade, por mais tosca que seja, predomine?

A história se repete e, infelizmente, Luis XIV, o rei sol francês, parece ter aportado em terras brasileiras. A célebre frase –  l’état c’est moi – « o estado sou eu » parece ecoar viva pelos corredores do Palácio do Planalto.

Não obstante a prerrogativa constitucional de escolha, nomeação e destituição de ocupantes de cargos comissionados no governo federal, o presidente da república deve ser prudente ao fazê-lo.

Em primeiro lugar, deve apresentar, não só ao ministro, mas a toda a sociedade, com a máxima clareza, o projeto de governo que possui.

Sem isso, torna-se impossível agregar valor à equipe sem que a todo momento as ações esbarrem no ego ou vaidade deste ou daquele.

É preciso um norte bem definido para que os técnicos possam estabelecer suas estratégias de ação. Na inconstância em que vivemos, ao sabor dos ânimos do presidente, não chegaremos a lugar nenhum.

Mais do que países com menor desenvolvimento econômico, estrutural e social, o Brasil navega sem rumo, graças à desmedida valorização do ego e à falta de coragem daqueles que cercam o presidente de dizer-lhe e de fazê-lo ver o que, absurdamente, insiste em não ouvir ou ver.

Não é justo que o povo pague com vidas pela atabalhoada visão do presidente, que se considera superior a todo o entendimento da comunidade médica e científica internacional sobre a pandemia.

Podemos esperar, pela postura do governo federal, restrições a produtos originários do Brasil e aos próprios cidadãos em vários países do mundo, caso essa situação não mude.

E para quem se preocupa tanto com a economia, como o nosso presidente, fica um alerta : a economia se guia por esperança e perspectivas ; e estas, por sua vez, devem ser estabelecidas de modo concreto e lógico por sinais e, sobretudo, ações governamentais.

Como grandes investidores enxergarão o Brasil, sendo conduzido de forma tão descompassada em momentos de crise ? A bolsa de valores e o câmbio já têm dado a resposta.

É hora de gerir melhor o país e de pensar mais nos cidadãos como um todo, e bem menos nos « likes » de simpatizantes nas redes sociais.

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Author: José Vieira

Jornalista, Diretor da Associação Paulista de Imprensa - API, bacharel em Direito(aprovado na OAB), servidor público, pós graduado em Direito da Comunicação Digital, MBA em Gestão Pública, professor do Centro de Estudos e Ensino em Segurança Pública e Direitos Humanos - CESDH

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