PRIVATIZAÇÃO DOS CORREIOS – RESPEITO AO DINHEIRO PÚBLICO

(Foto: Edu Andrade/ASCOM/Ministério da Economia)
(Foto: Edu Andrade/ASCOM/Ministério da Economia)

Seria de se estranhar ver um título de artigo tão forte quanto este há 20 anos. Principalmente se tratando de uma empresa que sempre esteve no coração dos brasileiros, como era a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, hoje simplesmente chama da “Correios”.

Naquela época o trabalho da empresa gerava respeito a todos os cidadãos, que não viam alternativa melhor para o envio de suas encomendas e até cartas, para aqueles que não dominavam computadores. Não se cogitava, em hipótese alguma, qualquer medida que reduzisse o alcance dos Correios.

Atualmente, porém, o cenário é bem diferente, chegando a ser catastrófico. Não se sabe ao certo se por ingerência política ou má gestão pura e simples, a qualidade dos serviços caiu vertiginosamente, ao mesmo tempo em que o preço dos serviços subiu como um foguete. 

Não é possível, de longa data, crer que um “sedex” chegará ao destino dentro do prazo estabelecido, o que conflita com a exaustivamente veiculada propaganda de eficiência e presteza desse tipo de entrega.

E o problema não é apenas esse. Entrega de correspondência em endereço errado, aviso tardio de produto a ser retirado na central de distribuição ( quando o cidadão procura o bem, este já foi devolvido à origem); horário de trabalho que impede o cidadão comum, trabalhador, de acessar uma agência para retirar ou postar uma encomenda, enfim, são tantas mazelas, que não há mais o que justifique, em meio a tantas empresas privadas eficientes, que um elefante branco como este seja mantido com dinheiro público.

O que já foi motivo de orgulho, hoje é razão de escárnio.  Só que esse deboche volta-se contra o próprio cidadão, que paga tarifas altas por um serviço muito aquém do esperado.

Uma questão estranha nesse imbróglio reside no fato desses problemas se arrastarem há anos, e nada, absolutamente nada, ter sido feito pelos governos para saná-los, o que também faz suspeitar de um obsceno desejo político de sucatear e desacreditar para vender.

Nessa nova temporada de privatizações recém anunciada pelo ministro Paulo Guedes, os Correios estão na mira, estranhamente ao lado de empresas bem sucedidas, como é o caso do Serviço Federal de Processamento de Dados – SERPRO, o que causa espécie.

É preciso que o governo apresente suas pretensões com critério, e que não se desfaça de patrimônio saudável simplesmente para acudir uma necessidade de momento ou de médio prazo para melhorar a economia do país até as próximas eleições presidenciais.

Que o país necessita se desapegar de empresas gigantescas, dispendiosas e ineficientes, essa é uma realidade inconteste. Mas seria muito bom que o governo, antes de se desfazer do patrimônio público, mesmo o problemático, explicasse ao povo, com clareza, por que não é viável melhorar a gestão e tentar mudar o quadro das empresas. 

Será que a escassez de bons gestores no serviço público é tão grande assim? Será que toda empresa pública padece de ingerência política, e os governos são inábeis para adotar mecanismos que inibam isso?

São perguntas que, se respondidas com objetividade, podem delinear o caminho a seguir, ao menos em relação a empresas públicas que ainda tenham know-how e credibilidade perante a população e o mercado, o que, infelizmente, parece não ser o caso dos Correios.

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Author: José Vieira

Jornalista, Diretor da Associação Paulista de Imprensa - API, bacharel em Direito(aprovado na OAB), servidor público, pós graduado em Direito da Comunicação Digital, MBA em Gestão Pública, professor do Centro de Estudos e Ensino em Segurança Pública e Direitos Humanos - CESDH

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