LULA E TRUMP – A QUÍMICA PROMISSORA

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Trump não perdeu tempo: logo após o encontro, escreveu em rede social que a reunião com Lula foi “muito boa” e chamou o brasileiro de “muito dinâmico”. Prometeu novos encontros em breve. Lula, fiel ao próprio estilo, preferiu a coletiva: detalhou a pauta, explicou o que foi dito e, com isso, sinalizou o que pretende da relação com Washington.

O foco, segundo ele, foi a retomada e o fortalecimento dos laços entre Brasil e Estados Unidos, especialmente nas áreas econômica e comercial. Lula insistiu que quer ver o país tratado como parceiro relevante, não coadjuvante regional. Lembrou que, enquanto os EUA reduziram a atenção à América Latina, a China avançou. Defendeu diálogo, multilateralismo e liberdade para negociar com todos, desde que respeitadas soberania e interesses nacionais.

Para dar conteúdo a esse discurso, propôs um grupo de trabalho bilateral para destravar impasses comerciais e rever tarifas de importação, com uma proposta concreta em 30 dias. Saiu dizendo-se otimista e afirmando que Trump demonstrou disposição em manter o diálogo. Em diplomacia, não é pouco: o simples compromisso de seguir conversando já é um ativo.

O encontro também desceu ao subsolo da geopolítica: as terras raras. Lula falou em conhecer melhor o território, planejar a exploração e, sobretudo, quebrar o velho padrão de exportar matéria-prima e importar tecnologia. Defendeu que o Brasil desenvolva a cadeia produtiva internamente, do processamento à industrialização, em parceria com quem quiser investir — inclusive empresas americanas, mas sem preferência. Tratou o tema como questão de soberania e deixou claro que o objetivo é ser “criador dessa riqueza”, não apenas fornecedor barato.

Em seguida, vieram as guerras. Lula apresentou a visão brasileira: diálogo no lugar de intervenção militar, crítica aos ataques de Estados Unidos e Israel ao Irã, rejeição a embates públicos com Trump, ainda que haja divergências. Mencionou Irã e Venezuela, ofereceu o Brasil como possível mediador, mas sem ilusões: “Trump não vai mudar o jeito dele de ser por causa de uma reunião de três horas comigo”. Reafirmou-se “totalmente contra guerras” e apostou no velho argumento: conversar é mais barato e não mata ninguém.

Houve também espaço para discutir o topo da arquitetura internacional: o Conselho de Segurança da ONU. Lula repetiu que a estrutura atual reflete 1945, não 2026. Cobrou protagonismo de Estados Unidos, China e Rússia na reforma do órgão e defendeu a ampliação com novos membros permanentes, citando Brasil, Japão, Índia e países africanos. Em resumo: se a ONU não se atualizar, perde relevância.

Entre um tema denso e outro, Lula abriu espaço para o humor — e para a imagem. Relatou que brincou com Trump sobre a próxima Copa do Mundo: disse esperar que os vistos dos jogadores brasileiros não sejam cancelados, porque o Brasil pretende ir aos EUA “para ganhar a Copa”. Trump riu, e Lula comentou que, dali em diante, ele “vai rir sempre”. Uma piada calculada para suavizar o clima e mostrar ao público que o encontro não foi só tensão e protocolo.

Curiosamente, alguns assuntos que cercavam a reunião ficaram de fora. Lula disse que não se discutiu a possível classificação de facções criminosas brasileiras como grupos terroristas, ainda que o Brasil tenha reforçado, em linhas gerais, o compromisso de combater o crime organizado e ampliar a cooperação internacional. E, apesar de toda expectativa, o PIX também não entrou na pauta.

O silêncio sobre o sistema de pagamentos é revelador. Os Estados Unidos investigam o Brasil por supostas irregularidades em práticas comerciais, e o PIX é visto como ameaça a empresas americanas, em especial do setor de cartões. Lula levou o ministro da Fazenda, Dario Durigan, justamente para tratar disso. Como Trump não tocou no tema, preferiu não puxar. Depois, respondeu com ironia leve: espera que, um dia, o próprio presidente americano “ainda vai fazer um PIX”, lembrando que muitas empresas dos EUA já o utilizam.

Do que se sabe publicamente, foi isso: um encontro descrito como “muito bom” por Trump, detalhado por Lula, com foco em reaproximação econômica, terras raras, guerras, reforma da ONU, um momento de futebol e bom humor, e um silêncio calculado sobre terrorismo e PIX.

O que vem pela frente é uma relação que tende a ser pragmática: grupos de trabalho discutindo tarifas, negociações em torno de recursos estratégicos, choques de visão sobre conflitos e sobre o sistema financeiro, tudo temperado por fotos, postagens e frases de efeito. Cabe ao Brasil aproveitar a janela aberta para se afirmar como parceiro — e não apenas como território rico à espera de quem venha explorar. O tom do primeiro encontro indica que o jogo está aberto. Resta ver quem vai impor seu estilo nas próximas jogadas.

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Sobre José Vieira 219 artigos
Professor, Jornalista, Bacharel em Direito(com OAB), Servidor Público, Pós-graduado em Direito da Comunicação Digital, MBA em Gestão Pública, Pós-graduado em Direito Administrativo

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