O xerife, o aliado e o vizinho encrenqueiro

*fonte da imagem: viva.com.br
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Havia um tempo em que a política externa dos Estados Unidos cabia em um faroeste: o xerife era sempre americano, o mocinho variava conforme a década, e o vilão de plantão fazia o favor de usar turbante, barba ou uniforme que facilitasse o enquadramento na lente da câmera. A plateia sabia quem aplaudir, quem vaiar, e o roteiro seguia em linha reta.

Então chegou o século XXI, a internet, as guerras longas demais, o preço da gasolina, o cansaço dos eleitores – e, para apimentar o enredo, um presidente chamado Donald Trump, com Israel de um lado do palco e o Irã do outro. De repente, o faroeste virou série de streaming, com trama confusa, audiência irritada e críticos dizendo que o roteiro “não convence mais”.

Trump entrou em cena garantindo que iria recolocar os Estados Unidos “em primeiro lugar”. Na prática, significava bancar o xerife da mesma maneira de sempre, mas exigindo um pouco mais de aplausos do público doméstico e, se possível, menos gasto de munição no exterior. Era preciso posar de durão com o Irã, de aliado incondicional de Israel e, ao mesmo tempo, explicar ao contribuinte americano por que tantas crises internacionais não pareciam se resolver nunca.

Israel, naquele enredo, era o parceiro barulhento: gesticula, fala alto, mostra mapas, gráficos e discursos inflamados sobre segurança e ameaças existenciais. O Irã, por sua vez, interpretava o papel de vilão resiliente, desses que apanham no episódio 3, voltam no episódio 5 e, no final da temporada, ainda estão de pé, ligeiramente mais desgastados, mas vivos. E o governo Trump, no meio, tentava vender ao eleitorado a ideia de que cada tuíte contra Teerã era um triunfo estratégico histórico.

O problema é que a realidade, essa senhora pouco colaborativa, não costuma se curvar a slogans de campanha. As sanções apertaram, os discursos foram ficando mais estridentes, as ameaças de “máximas pressões” viraram refrão repetido. O Irã, porém, adaptou-se ao cerco com uma habilidade que faria inveja a roteirista de novela: desviou rotas, rearrumou alianças, aprendeu a sobreviver com menos aplausos e mais teimosia. Quando a poeira baixou, a impressão incômoda, em Washington, era de que o suposto vilão continuava de pé – e o xerife é que parecia ofegante.

Israel, por sua vez, aproveitava cada gesto americano para reforçar sua própria narrativa. A foto conjunta, a assinatura de documentos simbólicos, as declarações de amizade eterna – tudo era imediatamente convertido em capital político interno. Nos Estados Unidos, no entanto, o efeito era mais ambíguo. Parte do eleitorado aplaudia o alinhamento quase automático com o governo israelense; outra parte, exausta de guerras e crises no Oriente Médio, perguntava-se se essa amizade não vinha com custo alto demais, sobretudo quando as promessas de “vitória rápida” sobre o Irã pareciam sempre adiadas para a próxima coletiva de imprensa.

No meio disso, as pesquisas de opinião começaram a contar uma história desagradável ao governo Trump: o desgaste político não vinha apenas da economia, de temas internos, da polarização doméstica, mas também da sensação de que, no embate com o Irã, os Estados Unidos tinham gasto muita retórica para colher resultados modestos. Em linguagem menos diplomática: prometeu-se um nocaute, e o que se viu foi, no máximo, um empate cansado – com leve vantagem psicológica para o adversário que se recusou a cair.

Os estrategistas da Casa Branca, é claro, tentaram ajustar a narrativa. Em vez de falar em “vitória”, passaram a falar em “contenção”; em vez de “derrota”, em “reconfiguração estratégica”. O eleitor americano médio, porém, não costuma acompanhar notas de rodapé em relatórios diplomáticos. Ele repara, isto sim, quando o noticiário mostra que o Irã continua influente na região, que o aliado israelense continua pedindo mais firmeza, e que, apesar de toda a coreografia de ameaças, o tal “eixo do mal” não parece exatamente quebrado.

Tudo isso com um detalhe incômodo se aproximando no calendário: as eleições de meio de mandato. Aquelas em que muitos presidentes americanos descobrem, dolorosamente, que o entusiasmo do eleitor é um recurso renovável apenas em teoria. Trump começou a perceber que o eleitorado não se impressiona indefinidamente com discursos sobre “força” e “liderança mundial” se o saldo visível for a imagem de um Irã ainda desafiador, um Israel ainda preocupado e um país cansado de promessas de solução definitiva para um problema que se arrasta há décadas.

No capitólio, alguns parlamentares faziam contas. Outros faziam discursos. E muitos faziam as duas coisas ao mesmo tempo. O que se desenhava, em tom de aviso, era um cenário em que as urnas de meio de mandato poderiam funcionar como espécie de plebiscito informal sobre o desempenho do presidente, incluindo sua atuação no tabuleiro do Oriente Médio. A ideia de “derrota externa” – mesmo que mais simbólica do que militar – tinha o hábito de escorrer para dentro das fronteiras, contaminando a percepção geral de liderança.

O curioso é que, olhando de fora, tudo isso pode parecer uma ópera geopolítica de alto nível. Mas, por baixo dos mapas e das análises, o enredo é bem humano: um presidente tentando mostrar força, um aliado cobrando mais apoio, um adversário que se recusa a sumir do mapa, e um eleitor que, no fim, quer saber se a vida dele, ali no seu Estado, melhorou ou não. Se o preço do combustível subiu, se o emprego está instável, se as notícias de mais uma crise lá longe tornam-se apenas ruído de fundo.

Enquanto isso, o Irã segue no papel de vilão resiliente que descobre, a cada temporada, novas formas de sobreviver ao roteiro. Israel continua lembrando ao mundo que vive em uma vizinhança turbulenta e precisa do xerife por perto. E o governo Trump descobre que, no episódio das eleições de meio de mandato, quem decide não é a diplomacia, nem o Twitter, nem os discursos inflamados – é o eleitor, com seu lápis simples, rabiscando em silêncio a crítica final à temporada.

Se essa história tem “aparente derrota americana perante o Irã”? Aos olhos do público interno, muitas vezes, tem. Só que, ao contrário do velho faroeste, o filme não acaba com o bandido caído na poeira e o xerife limpando a estrela no peito. Termina, quase sempre, com analistas discutindo gráficos em programas de TV, aliados contabilizando ganhos e perdas, adversários comemorando, e o mundo preparando a próxima crise.

Porque, na série infinita da política internacional, até derrota vem com renovação automática de temporadas – e o eleitor, coitado, é o assinante que não consegue encontrar o botão de “cancelar assinatura”.

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Sobre José Vieira 218 artigos
Professor, Jornalista, Bacharel em Direito(com OAB), Servidor Público, Pós-graduado em Direito da Comunicação Digital, MBA em Gestão Pública, Pós-graduado em Direito Administrativo

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